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Metade dos brasileiros é sedentária, diz pesquisa
Estudo inédito foi encomendado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia.

País-modelo é a Finlândia, com apenas 8% de não-adeptos de atividades físicas; esse índice chega a 60% nos Estados Unidos.

Fonte: Folha de S.Paulo
Data: setembro/2007r> Seção: Cotidiano

Por: Cláudia Colucci


Metade dos brasileiros não pratica atividade física, revela pesquisa inédita da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia) com 2.012 pessoas entre os 18 e 70 anos. O sedentarismo, associado à dieta inadequada, é o principal fator de risco para as doenças cardiovasculares, que matam 300 mil por ano no país. O levantamento, realizado pelo Datafolha e que será divulgado hoje durante o Congresso Brasileiro de Cardiologia, mostra que o índice de sedentarismo cresce conforme a pessoa envelhece. Dos 18 aos 24 anos, 39% dos brasileiros não praticam atividades físicas.

Na faixa etária de 25 a 44 anos, a taxa de sedentarismo aumenta para 50%. Dos 45 aos 59 anos, passa para 53%. E entre os idosos de 60 a 70 anos chega ao seu ápice: 57% levam uma vida sedentária.

Nos EUA, o índice de sedentarismo é estimado em 60%. O país-modelo é a Finlândia: apenas 8% dos habitantes não praticam atividade física.

Da metade dos brasileiros que praticam exercícios, apenas 20% o fazem diariamente, forma considerada ideal pelos médicos. A pesquisa revelou que os homens se exercitam mais do que as mulheres: 60% contra 41%. A caminhada ou a corrida, ao lado do futebol, é o esporte preferido por 26% dos homens. Entre as mulheres, ela lidera absoluta: tem 31% das preferências.

Segundo o cardiologista Álvaro Avezum, diretor de promoção à saúde cardiovascular da SBC, o sedentarismo da população está diretamente relacionado à "absoluta mecanização nas grandes cidades".

"A gente só anda de carro porque não tem segurança de andar a pé. Pega o elevador em vez de usar a escada e, em casa, usa o controle remoto. Essa qualidade de vida só nos faz adoecer", afirma o médico, que diz praticar uma hora de corrida em esteira por dia.

"Não sou hipócrita. O que eu recomendo aos meus pacientes no consultório, faço em casa." Entre os cardiologistas, o índice de sedentarismo é de 30%, segundo a SBC. Para Avezum, não basta uma mudança individual, é preciso transformações sociais para estimular as pessoas a se movimentarem, com a criação de espaços públicos que propiciem atividades físicas.

Cardiopata e sedentária, a arquiteta Cibele Taralli, professora da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), sente a falta de opção de espaços na própria pele. "Moro em Pinheiros, um bairro poluído, sem praças e parques por perto. Não tem como andar na rua."

Cibele, 53, conta que vive recebendo "puxão de orelha" do cardiologista. "Faço algumas caminhadas, mas logo desisto." Caminhar esporadicamente não traz benefício cardiovascular, afirma Avezum. A "prescrição" é meia hora de atividade moderada todos os dias ou uma hora três vezes por semana. "Tem que suar e cansar."

Cidade não estimula a andar, diz arquitetadiz arquiteta.

Médicos defendem espaço público mais amigável para a prática de exercícios .

Poluição, calçadas esburacadas e disputa por espaço com os carros são desestímulos apontados por especialistas e moradores.

DA REPORTAGEM LOCAL
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Em um ponto, médicos e arquitetos concordam: o modelo de urbanização nas grandes cidades, como São Paulo, privilegia os automóveis em detrimento dos pedestres e dos ciclistas, tornando as ruas e as calçadas espaços impróprios para atividades físicas.
A arquiteta Cibele Taralli, professora da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP, diz que as calçadas não foram planejadas e não são conservadas a ponto de favorecer a movimentação de pedestres e de veículos leves, como a bicicleta e o skate.

"Vou andar, mas disputo espaço com os carros, é aquela poluição horrível. Isso não estimula ninguém a andar nas ruas. São Paulo é uma cidade pensada em pedaços, sem visão de continuidade das coisas." Para o cardiologista Álvaro Avezum, as pessoas não são sedentárias porque querem, mas sim porque os espaços públicos não as estimulam ao exercício. "Se não tiver os planejadores de cidade para facilitar algum gasto enérgico, vamos explodir em doenças cardiovasculares."

Ele cita o exemplo de capitais como Viena (Áustria) e Paris (França), em que a pessoa pode alugar bicicletas públicas a 1 (o equivalente a R$ 2,80).

O endocrinologista Bruno Geloneze, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), também defende melhorias no espaço público para estimular a prática de exercícios.

Segundo ele, da mesma forma que o risco cardíaco passou a ser um problema multidisciplinar, a atividade física não depende apenas do cidadão ou do médico, mas também de uma ação governamental.

"Precisamos ter parques e praças seguras para que a população se exercite, ter calçadas sem buracos para que as pessoas caminhem sem tropeçar. Isso é mais barato do que investir em remédio", afirma.

O cientista social Sergio Andrade emenda: "Caminhar com toda essa poluição não vale a pena, não me sinto estimulado. Ir ao Ibirapuera pra respirar fumaça?", questionava ele, enquanto passeava anteontem pela avenida Paulista.

Os arquitetos Luciano César Teixeira e Anelisa de Paula concordam que a cidade é poluída e as ruas e calçadas não estimulam as caminhadas, mas recorrem ao parque Ibirapuera sempre que podem.

Teixeira conta que passou um ano sem praticar esportes, mas hoje corre 10 km todos os dias no Ibirapuera. "Trabalho muito parado e, correndo, consigo diminuir as coisas ruins em todos os sentidos: mental, espiritual e físico."

Anelisa diz que tenta compensar com a prática esportiva o fato de passar o dia todo trabalhando no computador. "Fora do escritório, caminho no parque duas vezes por semana e treino boxe outras três." (CLÁUDIA COLLUCCI E JOHANNA NUBLAT)

Perda de 7% do peso e exercício físico previnem o pré-diabetes

DA REPORTAGEM LOCAL

A redução de 7% do peso corporal e a prática de exercícios físicos três vezes por semana são suficientes para prevenir o "pré-diabetes", um estágio anterior à diabetes vivido por pessoas que apresentam intolerância à glicose. No Brasil, estima-se que ao menos 8% da população esteja nessa condição.

A intolerância à glicose significa que o corpo não está reconhecendo adequadamente a ação da insulina (hormônio responsável por retirar o açúcar do sangue e permitir sua entrada nas células). Essa falha leva ao aumento dos níveis de açúcar no sangue.

Embora muitos médicos brasileiros já estejam tratando pacientes pré-diabéticos com remédios sob o argumento de que eles já apresentam alto risco de sofrer um infarto, outros defendem como terapia a adoção de uma dieta sem açúcar refinado e gorduras saturadas, associada à perda de peso com a prática de atividade física.

Com a mudança de estilo de vida, o pré-diabético deixa de ser um paciente de alto risco cardíaco, segundo o endocrinologista Bruno Geloneze. Se continuar sedentário e comendo mal, tem até três vezes mais chances de sofrer um infarto.

O pré-diabetes será tema de um workshop que acontece hoje no Congresso Brasileiro de Cardiologia, em São Paulo.

Finlândia combateu sedentarismo

DANIELA TÓFOLI
DA REPORTAGEM LOCAL

Dar prêmios para quem passasse 30 dias sem fumar, obrigar os fazendeiros a produzir leite com pouca gordura, enviar mais verbas para as cidades que reduzissem o nível de colesterol de seus habitantes e estimular competições esportivas. Foi com medidas consideradas "pouco ortodoxas" que a Finlândia, no extremo norte europeu, se tornou referência mundial no combate ao sedentarismo e conseguiu mudar sua colocação no ranking mundial do bem-estar.

Na década de 70, o país ocupava as últimas posições nos estudos que mostravam quais nações tinham habitantes mais saudáveis, e amargava níveis recordes de doenças cardíacas.

Os hábitos de vida da população eram condenáveis: muito cigarro e álcool, nenhum exercício físico e uma alimentação rica em leite e carne extremamente gordurosos.

Preocupado com os recordes negativos, o governo decidiu agir antes que fosse tarde demais e conseguiu alguns feitos dez anos após o início das medidas: entre 1982 e 1997, diminuiu as doenças cardiovasculares em 63%, proporção similar à redução de câncer de pulmão em 20 anos.

Na Finlândia, é proibido fumar em qualquer lugar público e fazer propaganda de cigarros há mais de 30 anos. Com essas medidas, a expectativa de vida no país aumentou cerca de sete anos para os homens e seis para as mulheres. "Não era instrução que as pessoas precisavam, era motivação", afirmou Pekka Puska, diretor do Instituto Nacional da Saúde Pública em Helsinque, ao jornal inglês "The Guardian". "E foi isso o que fizemos", disse.

O que a Finlândia fez para melhorar os hábitos da população

  • Obrigou os fazendeiros a produzir leite com pouca gordura
  • Mandou mais verbas para cidades que reduziram o nível de colesterol dos habitantes
  • Estimulou competições esportivas


  • Resultado

    63% foi a diminuição da ocorrência de doenças cardiovasculares no país entre 1982 e 1997.



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