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Presidente da ABQV fala sobre os desafios das corporações

A Associação Brasileira de Qualidade de Vida é uma entidade sem fins lucrativos que tem como missão promover a interação e o desenvolvimento de profissionais multidisciplinares voltados para a atuação em qualidade de vida.

Para isso, a entidade realiza diversas atividades como, encontros mensais, cursos, congressos e até um prêmio que visa reconhecer as melhores práticas das organizações.

Leia a seguir uma entrevista dada à Edição Especial da Revista Saúde Corporativa de setembro de 2005, pelo presidente da associação, Alberto Ogata, que fala um pouco das atividades da ABQV e dá um panorama da prática da promoção de saúde no Brasil.


Você acredita que as ações em qualidade de vida e promoção de saúde podem ser realizadas somente pelas grandes corporações?

Alberto Ogata - O mundo do trabalho em nosso país é bastante complexo. Sabemos que mais de 99% das empresas são pequenas ou médias e praticamente metade dos trabalhadores não possui carteira assinada. Deste modo, é importante que se pesquisem alternativas viáveis para a promoção da saúde e da qualidade de vida não somente nas grandes, mas também nas pequenas empresas. Na minha opinião, as iniciativas ainda são tímidas e limitadas. Não observo uma ação organizada, ampla e abrangente, oferecendo estratégias práticas para o pequeno empresário, mesmo sabendo que a produtividade pessoal e de sua empresa é fortemente comprometida por problemas como stress, doenças, desajustes emocionais e de relacionamento interpessoal, sedentarismo e violência.

Com o aumento da expectativa de vida,como você encara os desafios a serem enfrentados pelos gestores de saúde corporativa?

Alberto Ogata - O avanço da medicina tem possibilitado o controle de muitas doenças crônicas, possibilitando o aumento da expectativa de vida. Neste aspecto, quero destacar a teoria de compressão da morbidade, proposta pelo médico James Fries, na década de 70. Ele relata que em nossa vida há dois grandes momentos: o primeiro é aquele em que somos acometidos por uma doença crônica ou incapacitante e o outro é a morte. Por exemplo, uma pessoa pode ter uma vida normal até ter um infarto do miocárdio, um derrame cerebral ou um diagnóstico de câncer. A partir deste fato, há uma queda significativa da qualidade de vida, que se prolonga até a morte. Esta fase da vida dura, em média, 20 anos. O objetivo da compressão da morbidade é reduzir esta fase, que é de limitações, baixa qualidade de vida e grande uso do sistema de atenção à saúde (com aumento dos custos de assistência médica). Isso é conseguido através de abordagens efetivas em estilo de vida, com redução do sedentarismo e do tabagismo, controle do peso, alimentação saudável, vida emocional e social saudável. A compressão da morbidade, pela melhoria do estilo de vida, foi cientificamente comprovada, mas deve ser iniciada o mais precocemente possível, visando evitar a ocorrência precoce de lesões e doenças crônicas.

Como presidente da ABQV,como você vê o cenário da promoção da saúde e da qualidade de vida em nosso país?

Alberto Ogata - Tive a honra de ser eleito presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida neste ano, com o grande desafio de conduzir a entidade fundada há 10 anos por Ricardo De Marchi, que teve uma visão de futuro ao vislumbrar uma entidade que buscasse a integração de empresas e profissionais voltados à promoção do "wellness" no ambiente de trabalho. Acho fundamental a integração dos conhecimentos e pesquisas em promoção de saúde das universidades, particularmente através dos centros da Faculdade de Saúde Pública da USP e da FIOCRUZ com a abordagem prática no dia-a-dia das empresas. Temos de construir uma abordagem brasileira para o ambiente corporativo, unindo as experiências americanas, que enfatizam a responsabilidade pessoal com a gestão da saúde, e a visão européia que reforça a necessidade de um enfoque social e integrado com as políticas públicas. A ABQV vem se oferecer como o espaço para esta integração, como uma entidade sem fins lucrativos, sem vinculações políticopartidárias e que não visa oferecer serviços ou consultoria, mas congregar pessoas e empresas voltadas para a promoção da saúde e da qualidade de vida em nosso país.

Como promoção de saúde se encaixa no conceito da assistência médica?

Alberto Ogata - A atuação dos planos de saúde no Brasil está ainda fortemente centralizada na doença. E, nesta espiral, se incorporam o envelhecimento da população, a incorporação crescente de tecnologia, e a interminável queda-de-braço entre médicos e planos de saúde gerando custos crescentes, insatisfação dos usuários e encolhimento da base de clientes. No entanto, temos no Brasil, cerca de 5% de diabéticos, 30% de fumantes, 15% de hipertensos, 10% de obesos e 70% de sedentários. A principal causa de mortalidade são as doenças cardiovasculares. De acordo com um estudo americano, a redução do sedentarismo, da obesidade, os controles do tabagismo e do stress podem reduzir até 82% dos casos de doença cardiovascular. Deste modo, é fácil concluir que abordar as questões relacionadas a estilo de vida permitirá redução na prevalência destas doenças que geram faltas ao trabalho, incapacidade, elevados custos de exames, internações e cirurgias. Assim, considerando somente uma patologia trata-se de algo matemático a importância da promoção da saúde para a assistência à saúde. E neste cenário, assume grande importância a parceria entre as empresas, as corretoras e os planos de saúde.

"No Brasil, a atuação dos planos de saúde está fortemente centralizada na doença", Alberto Ogata, presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV)

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