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Alergia: sujos, porém saudáveis
Por Cláudio Patto

Fonte: MSN.COM.BR - Boletim Informativo Webventure

Introdução

Nós, amantes da natureza, ganhamos mais uma razão para justificar nossa paixão pelo mundo outdoor: a sujeira. Aparentemente, a sujeira pode ser benéfica na luta contra alergias, uma das novas epidemias da vida moderna.

Nos últimos 20 anos, a incidência de casos severos de alergia duplicou nos paises desenvolvidos, e a impressão que se tem é que, hoje, quase todas as crianças são alérgicas a alguma coisa.

Existem várias teorias para tentar explicar este aumento alarmante do número de pessoas alérgicas. Excesso de conservantes alimentícios, maior contato com produtos químicos e aumento da poluição são os preferidos. Mas recentemente uma teoria vêm ganhando força: a falta de sujeira.

Hipótese da higiene - Mencionada em um artigo recente sobre alergias publicado na National Geographic (leituras sugeridas no final do artigo), esta hipótese defende que os sistemas imunológicos modernos, de pessoas que cresceram em ambientes urbanos praticamente esterilizados, podem não ter sido bem treinados na infância, tornando-se suscetíveis ao contato com substâncias estranhas e exóticas como pólen, pelo de cachorro e gato, fungos, entre muitos outros.

A vida moderna, que nos forneceu um melhor atendimento médico e também reduziu as mazelas infecto-contagiosas, trouxe consigo um excesso de zelo com a limpeza, fazendo com que nós, quando crianças, tenhamos muito menos contato com certos agentes encontrados na sujeira que podem auxiliar a reduzir os casos de alergia.

Esta hipótese não é simples e é também controversa, mas alguns fatos intrigantes apontam em sua direção:

  • Alergias respiratórias são mais comuns em sociedades ricas que em pobres;
  • Crianças que freqüentaram creche são menos susceptíveis a desenvolver alergias;
  • A incidência de alergia nas pessoas criadas no meio rural é menor que entre pessoas da cidade;
  • Pessoas que vivem em sítios e fazendas, em contato permanente com animais, raramente têm alergia.

    Só para crianças

    Esta hipótese se baseia no fato de sermos ou não expostos a determinados agentes na infância, quando nosso sistema imunológico está aprendendo e se treinando para defender nossos corpos contra agressões externas.

    Assim, dormir ao relento em um descampado, beber água de riacho ou conviver com animais de fazenda, apesar de ser divertido, teoricamente não iria mais ajudar o sistema imunológico de um adulto, destreinado e já sensibilizado pelas substâncias estranhas à nossa infância.

    Para nós, restariam apenas os remédios para atenuar os sintomas, os tratamentos para reduzir nossa sensibilidade ou a mais eficiente saída de todas para a alergia: evitar o contato com a causa.

    Adulto não dá - Já é tarde para nós, mas se esta hipótese estiver correta, ela ainda pode ajudar nossas crianças. Elas estão treinando seus sistemas imunológicos e um pouco de sujeira, ao menos certos tipos de sujeira, pode ser útil.

    Como a maioria de nós não está disposta a dividir a sala com uma vaca, apesar do leite fresco todos os dias, resta-nos relaxar um pouco com a limpeza. Não precisamos morar em uma casa imunda, mas ela também não precisa ser esterilizada. Não é preciso colocar os seis gatos da casa para dormir com o bebê no bercinho ou jogá-lo para rolar com os cachorros no quintal – não que isto não seja espetacular – mas se os animais forem calmos, saudáveis, vacinados e vermifugados, qual é o problema de um pouco de baba na careca?

    E para nós, amantes do ambiente natural, já podemos argumentar com a sogra sobre levar o bebê para fazer uma caminhada, para acampar ou para ir até a base da parede de escalada.

    Eu mesmo já tenho a cadeirinha-mochila Baby Trip para carregar o bebê e mal posso esperar para levá-lo pra conhecer a Mata Atlântica. Se este artigo convencer a minha sogra, é claro.


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    Cláudio Patto é biólogo e mestre em Ecologia Evolutiva. Ele já pesquisou vômito de sapo, dança de perereca e briga de borboleta. Fotógrafo de natureza, ele é assessor científico da National Geographic Brasil e leciona biologia no St. Francis College.



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