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UM TEMPO PRA MIM
Por: Rita Cotrim Passos
Imagine a aventura: percorrer andando quase 800km em 33 dias, enfrentando chuvas, cansaço e muitas bolhas nos pés. Pois foi este o desafio que eu enfrentei em outubro passado quando decidi fazer o Caminho de Santiago de Compostela.
Na verdade, o desafio foi além dos limites físicos, e começou muito antes: no momento em que decidi fazer a viagem. Como deixar filho, marido, trabalho e partir sozinha para o meu desejado período sabático? Logo eu, tão imprescindível, polivalente, cheia de compromissos...
Bem, talvez esta tenha sido a minha grande lição: todos sobreviveram (e bem) sem mim.
As pessoas sempre me perguntam: o que mudou para você? É difícil explicar exatamente. A única mudança visível é o tamanho das minhas malas, que desde então diminuíram sensivelmente. Mas só eu sei o quanto isso foi importante para mim. Apesar de não ter feito nenhuma ruptura radical na minha vida pessoal ou profissional, acho que me conheço melhor.
O tipo de auto-conhecimento e crescimento que ocorre num período sabático como esse é muito bem descrito por David Lundtz em "A essencial arte de parar": crescer "como o milho durante a noite". Não é um processo consciente. "Não temos de analisar nada para encontrar uma saída. Basta criarmos um pouco de espaço e tempo ao nosso redor, e nossa mente e nossa alma resolverão o problema".
Algo muito especial na minha jornada, e que eu não poderia deixar de citar: pessoas de toda a parte do mundo se espremendo entre beliches e mochilas coloridas, jogadas pelo chão. Pessoas que eu nunca tinha visto, e que no instante seguinte estavam dividindo comigo sua comida, pomadas cicatrizantes, informações sobre as trilhas, sonhos e anseios. A solidariedade é o sentimento mais presente no Caminho.
Muitas destas pessoas estavam comigo quando cheguei a Finisterre, o fim-da-terra, no Oceano Atlântico - de onde os antigos peregrinos traziam uma concha como prova de que tinham cumprido o desafio. Mas, apesar de estar rodeada de novos companheiros, meu pensamento se voltou para o Brasil. Especificamente para a minha família e para meus amigos, com quem gostaria de compartilhar a emoção daquele momento. E me vi a catar conchinhas na praia. Não uma, que comprovasse que eu estive lá. Mas muitas, para cada pessoa especial de minha vida, para que um pedaço de minha aventura pudesse ficar com eles e fazê-los lembrar não somente de mim, mas também os fizesse refletir que sonhos e desafios devem sempre fazer parte de nossa história.
*Rita Cotrim Passos é psicóloga e Diretora da CPH Health Solutions e Diretora de Comunicação da ABQV
Fonte: Conexão ABQV
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