MÉDICO DO TRABALHO, MÉDICO OCUPACIONAL OU ALGO MAIS?


Em 1983, como cirurgião infantil recentemente voltando ao Brasil e precisando aumentar meu “income”, decidi fazer o curso de especialização em medicina ocupacional na Unicamp onde tive como “guru” o professor René Mendes meu caro amigo até hoje...

Naquela época trabalhar numa empresa como médico era um “bico” e uma jornada de quatro horas, duas vezes por semana era o suficiente para a função. Foi essa a origem e o motor de meu envolvimento com a promoção da saúde corporativa. Era assinante do Journal of Occupational Medicine e, em uma das edições me atraí por um artigo que discutia o papel do médico do trabalho. Ele mostrava a valiosa contribuição que o médico ocupacional poderia oferecer à saúde corporativa se incorporasse o papel de educador em saúde.

Fazer exames ocupacionais, cuidar dos riscos ambientais e atender acidentes era o a rotina do dia a dia e, não haviam preocupações sobre o estilo de vida, sobre o uso da assistência médica, sobre saúde mental entre outras. A visão sobre saúde era totalmente distorcida no ambiente de trabalho.

Durante o dia a dia percebia que os empregados da linha de produção, após as pesadas refeições, ficavam deitados no pátio, esperando o sinal que indicava o momento de voltar para a linha. Pareciam jacarés tomando sol na beira do rio. Ao lado do pátio havia um bosque de pinheiros, onde era possível caminhar pela sombra. Pensei em mapear um caminho, colocando pequenas placas indicando a distância a cada 100 metros a fim de estimular os funcionários a uma leve caminhada após a refeição. Isso facilitaria a digestão, melhoraria a circulação e diminuiria a sonolência e o consequente risco de acidente. Resumindo, propus esse modelo ao setor de RH, argumentando que esse local para caminhadas seria uma oportunidade para melhorar a saúde dos empregados.

A resposta foi um sonoro não, pois não era permitido pelas normas corporativas misturar trabalho e lazer!

Apesar de alegar que aquela pista poderia ser olhada como um complemento do consultorio médico e da área de saúde, não houve eco da proposta. Esse acontecimento fez com que eu me desligasse da empresa e procurasse me aprofundar na lógica dos bons hábitos e da importância estratégica da saúde, o que fazia todo o sentido.

Há décadas o estilo de vida, comportamentos e hábitos de populações corporativas permanecem constantes, não obstante as mudanças no conhecimento, na tecnologia e nos beneficios oferecidos. O tema continua a ser tratado de forma não prioritária e a preocupação continua a se fixar nos custos das doenças.

Durante as últimas décadas o CPH avaliou uma população de aproximadamente 150 mil empregados, de diferentes segmentos e realidades por todo o país e os resultados foram publicados no capítulo Brasil do livro Global Perspectives in Workplace Health Promotion (Karch and Kirsten) edit. Jones & Bartlett NY, em coautoria com profissionais de diversos países. O quadro abaixo mostra como o estilo de vida não saudável prepondera no meio corporativo.

Numa população de 100 empregados:

  • 85 tem alimentação inadequado

  • 68 não praticam atividade fisica suficiente

  • 66 passam a maior parte do dia de trabalho sentados

  • 63 admitem sentir alto nivel de stress

  • 62 têm excesso de peso

  • 53 admitem sentir depressão ou ansiedade

  • 48 têm pressão arterial elevada

  • 28 têm alta ingestão de cafeina

  • 14 têm nivel de colesterol elevado

  • 09 têm dores costais crônicas

  • 06 têm ingestão elevada de bebidas alcoólicas

  • 04 têm diabetes

Sendo assim, o médico do trabalho está numa posição que o permite conscientizar e instruir sobre a importância e valor da saúde. Pode ser um influenciador de estilo de vida saudável para os empregados, os quais precisam de oportunidades para aprender a gerenciar a própria saúde. Felizmente as mudanças começam a acontecer e esse profissional tem tudo para se tornar o protagonista da nova realidade da saúde. Ele deve assumir o papel de educador pois tem a oportunidade de durante o exame periódico, catequisar o empregado no autocuidado, no uso adequado do sistema assistencial, na consciencia de riscos, entre outros aspectoshh.

Em resumo, seu papel está em alta e o significado será cada vez mais abrangente e a especialidade cada vez mais valorizada.

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