Promoção da Saúde Corporativa - Cap 9 - JAPÃO

Essa série semanal é baseada no livro GLOBAL PERSPECTIVES IN WORKPLACE HEALTH PROMOTION (Karch & Kirsten – Jones & Bartlett NY), no qual participei como co-autor, oferece um relato global do status da promoção de saúde em organizações de 21 países contribuindo para uma força de trabalho mais saudável, aumento da produtividade e redução dos custos de assistência médica.

RICARDO DE MARCHI, MD


GRUPO SAÚDE CORPORATIVA

CAPÍTULO 9 - JAPÃO


Autor:

· TAKASHI MUTO MD PhD – Department of Public Health Dokkyo Medical Univ.

· Grupos étnicos – japoneses 98,5%, coreanos 0,5%, chineses 0,4% , etc

· Religião – xintoismo 84% e budismo 71,4% (práticas simultâneas), catolicismo 2%

· Lingua – japonês

· Governo – parlamentarismo com monarquia constitucional

· População – 126,3 milhões

· Idade média- 44 anos

· Expectativa de vida – 84,22 anos

· Renda anual percapita – US$ 40.250,00


INTRODUÇÃO


Japão é uma nação insular situada no leste do continente asiático, no hemisfério norte. Composto de 05 ilhas principais onde florestas, terras agrícolas e áreas residenciais representam 66%, 13% e 05% respectivamente de sua superfície de 300 mil km2. Após a segunda guerra mundial a economia japonesa teve um alto crescimento se tornando a segunda economia no mundo.


O sistema educacional primário e secundário é baseado no 6-3-3 (seis anos de escola elementar, 3 de ginásio primeiro grau e mais 3 de ginásio segundo grau) e depois universidade. Aproximadamente 75,9% dos estudantes egressos do estágio considerado como ensino médio ingressam em uma universidade. A educação japonesa prima também por uma disciplina radical e uma tradição acirrada, fatores já responsabilizados várias vezes pelo alto índice de suicídios entre adolescentes e jovens, os quais são psicologicamente pressionados pelas famílias e por este sistema educacional altamente exigente.


Nos últimos anos o ambiente corporativo socioeconômico sofreu drásticas mudanças. Alta competição pela globalização, desenvolvimento da tecnologia de informação, envelhecimento da força de trabalho em meio a baixa taxa de nascimento e a mudança de atitude das pessoas em relação a vida e trabalho, com tendência a enfatizar a família e outros interesses fora do trabalho levando a uma significativa reforma nos padrões de trabalho e operação dos negócios. Isso incluiu mudanças nas estruturas organizacionais, estilo de gestão e diversificação do modo de trabalhar como trabalho flexível, temporário ou part-time, tele trabalho e pequenos escritórios em casa.


O nível de saúde no Japão é decorrente de inúmeros fatores incluindo hábitos culturais, isolamento e um sistema universal de assistência médica o qual proporciona oportunidade de acesso a toda a população. Segundo a Universidade de Tokyo há 10 anos os japoneses eram o grupo mais saudável do planeta com quase 14 consultas ano, mais de 4 vezes a média do mundo, além da mais alta expectativa de vida (84 anos) e mais alto indice de capital humano entre os 20 paises mais desenvolvidos definido como expectativa de vida entre 20 a 64 anos ajustada para nivel educacional, aprendizado e qualidade educacional.


Significado da promoção de saúde na sociedade japonesa


O interesse em responsabilidade social tem crescido nas empresas japonesas. Apesar da responsabilidade social corporativa discutir a proteção ao meio ambiente obedecendo leis e regulamentos, a saúde e a segurança ocupacional têm sido incorporadas nessa discussão. A manutenção e a promoção da saúde dos empregados através da prevenção de acidentes e doenças ocupacionais têm se tornado uma importante responsabilidade corporativa. Esse alinhamento entre responsabilidade social e saúde ocupacional partilha uma abordagem em comum, voluntária, que não depende da legislação e é baseada na ética.


QUESTÕES PREDOMINANTES


Doenças Crônicas – a maior causa de morte é o câncer, seguida de doenças cardíacas e AVC. Essas 03 representam aproximadamente 60% de todas as mortes. A taxa de obesidade é baixa (3,3%) provavelmente pela dieta japonesa e a demência tem a menor incidência entre os países desenvolvidos.


Comportamentos de risco – 20% da população pratica exercícios habitualmente por mais de 30´/dia + de 2 x/semana, mas não tem apresentado grande crescimento. A ingestão de gordura tem aumentado de forma gradual chegando a quase 30% da dieta.


Prevenção do Karoshi – (morte por excesso de trabalho) continua sendo um tema de atenção. As empresas são demandadas a reduzirem as horas extras e fornecer direcionamento para os médicos ocupacionais sobre empregados que trabalharem mais de 100 horas extras por mês. O objetivo do Ministério da Economia é reduzir o número de horas extras que os japoneses fazem e gerar um maior equilíbrio entre suas vidas profissional e pessoal. Companhias são encorajadas a liberar os funcionários às 15h na última sexta-feira do mês e na manhã de segunda. Em 2016, uma pesquisa do governo com 10 mil trabalhadores descobriu que mais de 20% estavam fazendo mais de 80 horas extras por mês. O governo reconheceu terem ocorrido 236 karoshis no ano financeiro de 2017.


Prevenção de transtornos mentais - o número de empregados que faltam ao trabalho por transtornos mentais tem aumentado. O Ministério da Saúde Trabalho e Bem-estar publicou um guia sobre a promoção da saúde mental para detecção precoce, tratamento e retorno ao trabalho dos indivíduos com depressão. As empresas devem fazer um plano de promoção da saúde mental dizendo como o sistema opera, como é implementado e quais os profissionais envolvidos além de uma política de confidencialidade seguindo uma metodologia de 04 itens - autocuidado, apoio na linha conduzida por gerentes e supervisores, cuidados pela área de saúde da companhia e assistência médica externa quando necessário.


Tabagismo ainda com taxas elevadas - causa 100 mil mortes anualmente (1 em cada 10 mortes), mas esforços tem sido feito para sua diminuição.


Suicídio – a taxa de suicídio no Japão é alta (30.000/ano) quando comparada com os USA. A suspeita é que ela se deve a problemas de saúde em quase 50% dos casos. Outro fator é o bullying entre jovens. Um estudo de 2017 do Instituto Nacional Japonês de Segurança e Saúde Ocupacional identificou que suicídios estão aumentando especialmente entre pessoas com idades entre 20 e 29 anos.


Alcoolismo - é um problema sério. Não é raro ver pessoas alcoolizadas dormindo nas ruas, espalhadas pelo chão. Uma rede de bares japonesa chamada Yaocho lançou em conjunto com agências de comunicação uma campanha através de cartazes chamada "Sleeping Drunks". Para muitos da sociedade japonesa o abuso de álcool não existe e a bebedeira é normal. A verdade é que a cultura da bebida no Japão é complexa - um coquetel de excitação, ansiedade e assédio, difícil de entender mesmo para os mais experientes. Para muitos, beber é uma diversão e um meio de aliviar o stress e se conectar com colegas, para outros um pesado vício.


SISTEMA DE ASSISTÊNCIA MÉDICA


No Japão a assistência médica é fornecida através de hospitais regionais /nacionais e os pacientes têm acesso universal, apesar de certos hospitais cobrarem taxas para aqueles que não são encaminhados. Entretanto, espaço pode ser problema em certas regiões. Mais de 14 mil pacientes em emergência foram rejeitados por três vezes antes de obterem tratamento em 2007. O seguro de saúde pública cobre a maioria dos residentes no país e paga 70% ou mais dos custos pelo tratamento e medicamento. Os pacientes são responsáveis pelo restante até um certo limite. O pagamento mensal varia entre 0 e 50 mil yenes (R$2.500,00) por família (baseado na renda). Seguro privado suplementar é disponível somente para cobrir co-pagamentos e geralmente é um custo fixo por dia de internação ou por cirurgia realizada e não por despesas totais.


O Japão gasta aproximadamente 8,2% do PIB com saúde e aproximadamente 83% desse gasto é do governo. Em 2009 Japão tinha 206 médicos por 100 mil habitantes, 850 mil enfermeiros e 1.6 milhão de leitos.

O número de médicos ocupacionais certificados pela Associação Médica Japonesa era de 80 mil na última década.


Grandes empresas com mais de 1000 empregados normalmente têm médicos próprios. Empresas com menos de 50 empregados não têm necessidade desse serviço. Uma lei de 1988 estipula que as empresas devem se esforçar continua e sistematicamente na manutenção e promoção da saúde de seus empregados fornecendo educação em saúde, aconselhamento e outros serviços além de estipular que o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-estar deve fornecer as normas e direcionamento para as empresas nessa área afim de que tais medidas sejam apropriadas e efetivas. Orientação através de um Plano de Promoção de Saúde Total, medida administrativa baseada na lei, cobre os aspectos concretos da promoção da saúde no trabalho. O objetivo é a prevenção de doenças tais como hipertensão arterial, diabetes, hiperlipidemia e obesidade e a adoção de um estilo de vida saudável. Assim o foco está no estilo de vida dos empregados: nutrição, atividade física, tabagismo, ingestão de álcool e gerenciamento do stress. Sob essas medidas os profissionais envolvidos incluem educadores de saúde, conselheiros em saúde mental, nutricionistas e educadores físicos.


INFLUÊNCIA DA CULTURA E MENTALIDADE


Os trabalhadores japoneses são considerados aplicados e workaholicos. Isso influencia o não absenteísmo e o nível da saúde. As férias anuais são de 18 dias, mas em média são usados 9 dias. Isso se deve ao desejo de poupar dias de férias em caso de doença ou outras circunstâncias inesperadas. Essa atitude é uma das causas de doenças relacionadas ao trabalho. Uma tradição é que as mulheres devem cuidar da casa e devem deixar o trabalho quando casam ou têm filhos.


A medicina chinesa tradicional foi introduzida no Japão entre o século V e IX. Desde 1900 herbalistas precisam ter licença para trabalharem como médicos. O treinamento médico é baseado no modelo biomédico de doença (Conceito de doença que exclui fatores psicológicos e sociais e inclui apenas fatores biológicos na tentativa de entender a doença ou distúrbio médico de uma pessoa). Esse modelo biomédico de saúde é o mais dominante no mundo ocidental, mas a prática da biomedicina foi influenciada pela organização social japonesa e expectativas culturais relacionadas à educação, organização do ambiente de trabalho, relações sociais, estilo de decisões e idéias sobre o corpo humano, causas de doenças, gênero, individualismo e privacidade.


A antropologia observa que o comportamento da higiene diária e seus conceitos adjacentes são expressos em termos da teoria biomédica dos germes e na verdade diretamente ligados na estrutura simbólica japonesa. A medicina ocidental foi introduzida inicialmente no período EDO (1600 a 1850). No período Meiji (final do século 19) a assistência médica foi baseada no modelo ocidental e foram criadas faculdades de medicina e inovações como vacinas que aumentaram a expectativa de vida. Desse periodo até a segunda guerra mundial, o alemão foi língua obrigatória para estudantes de medicina.


IMPULSIONADORES DA PROMOÇÃO DA SAÚDE NO TRABALHO


Quem é o mais ativo no campo da promoção da saúde no trabalho?

A promoção de saúde tem uma história de mais de 30 anos e surgiu pelo receio de baixa produtividade devido ao aumento do número de trabalhadores idosos. A PS apareceu pela primeira vez em 1979 no Silver Health Plan como política do Ministério do Trabalho. Pretendia promover a saúde física de empregados de média idade melhorando seu nível de atividade física e em 1988 o plano foi revisto acrescentando a atenção à saúde mental. O fundamento está na lei de saúde e segurança industrial que estipula a promoção da saúde como obrigação do empregador. Nesse sentido o Ministério do Trabalho é o mais ativo nesse campo.


Quem tem o maior interesse e porquê?

Devido à relação com a produtividade o Ministério do Trabalho é um dos principais interessados. Por outro lado, as companhias parecem não ter interesse na implementação do plano. Uma das razões talvez seja que não percebem a efetividade em termos de diminuição do absenteísmo, despesas médicas e aumento da produtividade A assiduidade do empregado japonês pode ser uma das razões para o baixo impacto do absenteísmo. Como os custos são partilhados meio a meio por empresa e empregados, a empresa pode sentir que a redução de custos não seja altamente importante e com isso desvaloriza programas de promoção de saúde


Qual o papel do governo?

O papel é explicitamente estabelecer normas e regras concretas como descritas abaixo além de assistência financeira.

  • Estabelecimento de comitês de promoção de saúde nas empresas

  • Checkups anuais para todos os empregados

  • Avaliação da aptidão fisica

  • Criação de ambientes de trabalho confortáveis

  • Regras para o tabagismo

  • Medidas de promoção da saúde mental


CONCLUSÃO


O conceito da promoção de saúde japonês focando no estilo de vida dos empregados é menos abrangente que o europeu. Entretanto está se expandindo através de normas que incluem intervenções no ambiente de trabalho e atitudes relacionadas ao trabalho. A questão da cobertura é importante não somente para melhorar a saúde nacionalmente mas para assegurar a igualdade na saúde. Pelo limite de recursos das pequenas empresas, elas são o principal alvo do ponto de vista de cobertura.


A baixa percepção da efetividade e a prevalência de doenças crônicas revela que muita coisa ainda precisa ser demonstrada. As futuras ações incluem a renovação do conceito, de práticas, avaliações e sistemas de gestão mais estruturados e desenvolvimento de políticas mais fortes.


GO AHEAD


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