Promoção da Saúde Corporativa - Cap 12 - FINLÂNDIA

Essa série semanal é baseada no livro GLOBAL PERSPECTIVES IN WORKPLACE HEALTH PROMOTION (Karch & Kirsten – Jones & Bartlett NY), no qual participei como co-autor, oferece um relato global do status da promoção de saúde em organizações de 21 países contribuindo para uma força de trabalho mais saudável, aumento da produtividade e redução dos custos de assistência médica.

RICARDO DE MARCHI, MD


GRUPO SAÚDE CORPORATIVA

CAPÍTULO 12 - FINLÂNDIA


Autor:

· Antero Heloma MD PhD – National Institute for Health and Welfare - Helsinki

· Grupos étnicos: finlandeses 94%, suecos 5,6%, russos 0,5%

· Religião: luterana 83%, ortodoxa 1,1% nenhuma 15,1%

· Lingua: finlandes 91,2%

· Governo: república

· População: 5,6 milhões

· Idade media: 42 anos

· Expectativa de vida: 81,74 anos

· Renda anual percapita – US$ 48.800



INTRODUÇÃO

Democracia nórdica situada na Escandinávia (norte da Europa). Faz divisa com Rússia, Noruega e Estônia. Membro da União europeia desde 1995. Considerada uma nação com alto nível de qualidade de vida que levou um bom tempo para ser atingida.


Em 1640 quando ainda era parte do império sueco (século 17 e 18) foi criada a primeira universidade da Finlândia (Royal Academy of Turku) quando a medicina não possuía um alto status na sociedade e o treinamento medico era de baixa qualidade. O primeiro hospital foi constituído em 1759 e possuía seis leitos num modesto prédio de madeira e marcou o início do moderno sistema médico finlandês. Importante notar que naquela época a proporção médicos /paciente era muito baixa comparada aos países vizinhos e isso durou até o século 20. Principalmente por falta de higiene, fome e pobreza, as causas mais comuns de morte no século 19 consistiam de doenças infecciosas como tuberculose, disenteria e febre tifoide.


Com o número de hospitais crescendo rapidamente a partir do final do século 19, ainda era incomum ser tratado em um deles. As maiores causas de morte eram doenças coronarianas nos homens e câncer de seio nas mulheres. Em 1929 um comitê foi criado para avaliar a situação da saúde no país. O plano de reforma do sistema de assistência médica foi atrasado devido a Segunda Guerra Mundial, mas o aumento da necessidade de cuidados para o tratamento de ferimentos dos soldados aumentou a rede hospitalar. Em 1950 tinha dois hospitais universitários, um em Helsink e outro em Turku.


O sistema atual pode ser considerado de sucesso analisando diversos indicadores – por exemplo devido a intervenções públicas houve uma melhora marcante na expectativa de vida nas últimas décadas assim como na diminuição da mortalidade infantil, que está entre as menores do mundo. Em 2009 a Finlândia tinha 2,7 médicos por mil habitantes, a qual é uma taxa baixa quando comparada aos outros países nórdicos. Isso pode parcialmente ser explicado pela importância da enfermagem que reduziu muito a necessidade de médicos (9,8 /1000). O pais é considerado bem-sucedido no campo de especialidade medicas, rastreamento de doenças e vacinação.


Baixa taxa de fertilidade e envelhecimento da população devido ao aumento da expectativa de vida traz novos desafios ao sistema, pois diminuirá a contribuição financeira e a população mais velha poderá ser afetada.


QUESTÕES PREDOMINANTES


A expectativa de vida tem crescido desde 1950 e uma das causas foi a redução da mortalidade cardiovascular. Outras como a redução da tuberculose e doenças infecciosas também contribuíram, porém ainda existem ainda grandes diferenças na mortalidade entre os grupos populacionais - os com maior nível educacional vivem mais.


A população finlandesa é a que tem maior expectativa de vida na Europa e é esperado que continue a crescer. Porém o desemprego e outros fatores que causam marginalização, aumento da obesidade e consumo de álcool tem efeitos adversos na saúde e podem desacelerar o processo ou mesmo interrompê-lo.


Habitos saudáveis – um censo anual chamado de “Health Behavior and Health Among Finnish Adult Population” é feito desde 1973 com o propósito primário de monitorar e obter informações do atual estilo de vida da população ativa e suas mudanças em curto e longo prazo. Examina os aspectos chaves comportamentais como tabagismo, hábitos alimentares, consumo de álcool e atividade física.


SISTEMA DE ASSISTÊNCIA MÉDICA


A assistência médica na Finlândia é baseada primariamente em recursos públicos e altamente descentralizada. Os cuidados primários são de responsabilidade dos centros de saúde municipais baseados em áreas onde a população tem no mínimo 20 mil pessoas. Os cuidados de especialidades são fornecidos pelos hospitais dos distritos. Apesar do Ministério de Assuntos Sociais e Saúde ser a autoridade máxima nas decisões, as municipalidades (governos locais) são as responsáveis por fornecer assistência médica aos seus residentes.


A Finlândia oferece a assistência médica universal sendo a prevenção e a promoção de saúde os grandes focos por décadas. Isso levou à erradicação de certas doenças comunicáveis e a melhoria do nível da saúde populacional. A qualidade dos serviços assistenciais é considerada muito boa e de acordo com a Comissão Europeia, está entre os 5 primeiros países em satisfação nesse quesito. 88% dos respondentes estão satisfeitos, comparados com 71% nos EUA.


Estrutura Organizacional

O governo central decide as estratégias e as prioridades gerais, propondo leis ao parlamento. A política da assistência médica é o campo do Ministério de Assuntos Sociais e Saúde que também coordena e direciona o desenvolvimento da proteção e bem-estar social. Devida à descentralização da administração pública, as municipalidades decidem como os serviços locais são fornecidos.


O acesso aos hospitais está sujeito ao pedido de um médico generalista e todas as pessoas acima de 16 anos têm o direito de decidir se querem estar no grupo 1 (podem escolher seu médico dentro de uma certa distância de sua moradia e usufruem gratuitamente de serviços de diagnóstico e preventivos) ou no grupo 2 (podem consultar qualquer generalista ou especialista sem referências de outros médicos e pagar uma taxa para isso.


Os serviços de cuidados primários empregam nos centros de saúde médicos generalistas e enfermeiros que atuam no dia a dia e também são ativos na promoção da saúde. Esses médicos são também triadores (gatekeepers) para os serviços especializados nos setores secundários e terciários.


Para serviços secundários a Finlândia é geograficamente dividida em 21 distritos hospitalares (sairaanhoitopiiri). Cada distrito fornece assistência especializada para as municipalidades dentro de sua região. Existe também uma rede de hospitais universitários de ensino que atendem o nível terciário. Eles contém avançados equipamentos e instalações médicas e são financiados pelas municipalidades. O governo nacional se responsabiliza pelo custo do treinamento profissional. Esses hospitais se localizam nas grandes cidades (Helsink, Turku, Tampere, Kuopio e Oulu) e todas possuem uma escola médica.


O Instituto Finlandês de Saúde e Bem-Estar é um centro de pesquisas e desenvolvimento que funciona como autoridade estatística nesse campo – promoção de saúde, prevenção de doenças e problemas sociais assegurando suprimento de vacinas e monitorando sua qualidade (é financiado pelo Ministério)

O sistema recebe o suporte financeiro de duas fontes – municipal, baseada nos impostos e uso dos serviços primários (podem cobrar taxas em certos casos) e regional no atendimento secundário. Como as municipalidades fornecem e compram serviços de saúde elas não encorajam o custo efetividade.


O Seguro Nacional de Saúde (NHI) é baseado em taxas compulsórias e serve para financiar a assistência médica privada, a assistência ocupacional, ambulatórios, medicamentos e tratamentos. O pagamento do próprio bolso na atenção primaria não ultrapassa 14 euros e o valor varia dependendo da autoridade local. Para doenças de longa duração os custos são baseados na receita do usuário. Apesar de ser um ponto vital para a saúde o sistema tem sido discutido pela desigualdade de acesso aos indivíduos de baixa renda.


Os gastos médicos na Finlândia ultrapassam 16 bilhões de euros e têm crescido desde o ano 2000. (Nessa época era de 2.936 euros per capita) e a saúde representa 25% dos gastos das municipalidades. Comparada com outros países nórdicos a Finlãndia tem o mais eficiente sistema público de saúde e seus gastos são os menores. Uma outra razão para isso são os baixos salários de médicos e especialmente enfermeiros.


Setor Privado

Pela abrangência do setor público, o setor privado é relativamente pequeno (3-4% da assistência). Fisioterapia, dentista e serviços ocupacionais são os mais usados. Aproximadamente 10% dos médicos trabalham somente no setor privado e apesar dos custos altos serem uma barreira, uma parte significativa é reembolsada pela Social Insurance Institution (SII) KELA. Por lei as empresas são obrigadas a fornecer serviços de assistência médica ocupacionais, assim como os estabelecimentos educacionais para seus estudantes e staff. Isso pode ser feito no setor público ou privado.


Seguro de Saúde Nacional

O esquema estatutário de seguro nacional cobre todos os residentes na Finlândia através de 260 escritórios locais em todo o país. A responsabilidade desse instituto inclui a cobertura de alguns benefícios familiares, reabilitação, seguro desemprego e garantia financeira a estudantes. Oferece níveis variados de reembolso para medicamentos ambulatoriais, serviços privados, transporte para os doentes, ajuda maternidade e reabilitação. Também reembolsa parcialmente serviços de assistência médica ocupacional aos empregados, mas não para dependentes.


Medicamentos

Medicamentos ambulatoriais, incluindo os que não exigem receita podem somente ser vendidos por farmácias. Os provedores podem somente fornecer medicamentos dentro de suas instalações. Os centros de saúde podem dar medicamentos quando as farmácias locais estiverem fechadas, mas somente em quantidade necessária durante o período de fechamento. A Finlândia tem a maior proporção de farmácias per capita da Europa – 127 farmácias para cada 100 mil habitantes. A prescrição eletrônica é usada em todas as farmácias o que melhorou a gestão de medicamentos para a população. O processo permite acurácia na compra de medicamentos e dados da prescrição antes de ser concluído. As e-prescrições reforçam o processo de assegurar a autenticidade das prescrições feitas.


Saúde e Tecnologia

A tecnologia tem sido muito usada pelos provedores e o desenvolvimento do sistema de informação não é coordenado a nível nacional, parcialmente pela descentralização existente. Como resultado diversos sistemas são usados o que inibe a troca de informações entre as diversas organizações provedoras. Esforços tem sido feitos para criar uma estrutura nacional de comunicação pela internet entre pacientes e provedores. Essa é uma forma dos serviços de e-Health promoverem informações sobre saúde e aumentar a eficiência na aquisição, armazenamento, recuperação e transferência de importantes informações médicas.

A telemedicine e a e-Health são formas de tecnologia úteis no controle remoto de paciente como durante a pandemia pela COVID-19. O Finnish Office for Health Technology Assessment FinOHTA é uma agência pública independente, parte do National Institute for Health and Welfare desde 1995. O objetivo é ajudar a tomada de decisões oferecendo informações com altos padrões científicos. Esse serviço é disponível a todos os grupos profissionais, políticos e público em geral. Outro objetivo é usar os resultados estrangeiros e avaliar a aplicabilidade dentro das condições locais.


Igualdade de acesso

É altamente valorizada e a lei dá os mesmos direitos a todos os cidadãos mesmo na assistência médica. Ainda existem algumas disparidades geográficas e socioeconômicas e talvez uma das principais razões pelas diferenças socioeconômicas na utilização dos serviços é que o setor privado e a assistência ocupacional são menos acessíveis à população de baixa renda do que os serviços municipais, principalmente no tempo de espera. Diminuir essas lacunas é o objetivo da política de saúde finlandesa.


Proteção à saúde

A Finlândia tem diversos serviços de proteção à saúde contra doenças infecciosas. Uma das áreas tem o foco na vacinação contra a gripe para os idosos. A redução da hepatite C é outra medida de proteção O uso desnecessário de antibióticos foi reduzido para prevenir o aumento da resistência na população e o país emerge como tendo um baixo consumo de antibióticos atualmente.


INFLUÊNCIA DA CULTURA E MENTALIDADE


A Finlândia, pode-se se dizer, é onde o Leste se encontra com o Oeste. Pessoas do Leste têm a cultura que segue tradições orientais, principalmente da Rússia diferente dos habitantes do Sul e da costa Oeste. Os finlandeses são considerados reservados e não falam muito. Não é fácil iniciar uma conversa com um finlandês e apesar da estrutura étnica da população ter se tornado mais diversificada, a mentalidade muda de forma gradual e as pessoas se socializam com menos dificuldade.


Atualmente os jovens vivem numa sociedade bem diferente da que viveram seus pais que são frutos da geração baby-boomers do pós-guerra. Nos anos 80 o adulto de meia idade particularmente no Leste tinha uma das maiores taxas de mortalidade por doenças cardíacas da Europa e um projeto (North Karelia) visando hábitos alimentares, tabagismo e atividade física foi iniciado o que resultou em diminuição da mortalidade coronariana.


IMPULSIONADORES DA PROMOÇÃO DA SAÚDE NO TRABALHO


A promoção da saúde no trabalho tem sua base no Workplace Health Care Act onde a responsabilidade da assistência medica preventiva é do empregador. Outras formas de assistência tais como tratamento para problemas de saúde e doenças não relacionadas ao trabalho não são obrigatórias. Muitas empresas com mais de 20 empregados compram voluntariamente serviços de assistência para seus empregados. O serviço nacional de seguros reembolsa 50 a 60% desses custos


Estrutura da promoção de saúde no trabalho - As empresas têm quatro diferentes meios de organizar a assistência à saúde ocupacional

  1. Estabelecer suas próprias unidades de saúde ocupacional (grandes empresas)

  2. Participar de uma unidade de saúde ocupacional conjunta, organizada e financiada por diversas empresas (empresas médias).

  3. Comprar saúde ocupacional de clinicas privadas (pequenas empresas)

  4. Comprar saúde ocupacional de centros de saúde municipais (pequenas empresas)

A força de trabalho finlandesa compreende quase 50% da população e a prevenção e promoção atua em 90% desse total. Cerca de 80% da força de trabalho possui cobertura de doenças por um sistema de assistência ambulatorial ocupacional financiado pelas empresas juntas com o sistema nacional de seguros. O objetivo da promoção da saúde é fazer com que empregador, empregado e profissionais de saúde ocupacional juntos devam:

  • Prevenir doenças e acidentes relacionados ao trabalho

  • Promover a saúde e a segurança no ambiente de trabalho

  • Promover a capacidade funcional dos trabalhadores durante sua carreira

A empresa junto com os profissionais ocupacionais tem a obrigação de:

  • Criar um plano de saúde e segurança no ambiente de trabalho

  • Fornecer checagens do nivel de saúde aos empregados

  • Avaliar capacidades físicas, funcionais e psicológicas e disponibilizar reabilitação quando necessário

  • Fornecer informações, conselhos e direcionamento relacionados à saude e segurança no trabalho

  • Fornecer primeiros socorros

  • Auditar a qualidade e a efetividade da promoção da saúde no trabalho

Problemas relacionados ao trabalho que refletem na saúde ocupacional são:

· Doenças musculoesqueléticas

· Distúrbios físicos, mentais, stress e exaustão

· Dificuldades de aprendizado

· Problemas na atmosfera de trabalho

· Má organização de trabalho

· Insegurança na manutenção do emprego

· Trocas administrativas


Principais elementos estratégicos na melhora da qualidade de vida profissional

Um ambiente de trabalho saudável e seguro junto com uma administração moderna é essencial para o aumento da produtividade e coesão social A comissão europeia lançou uma comunicação chamada Employment and Social Policies: a Framework for Investing in Quality. Inclui qualificação profissional, acesso ao mercado de trabalho, desenvolvimento de carreira, satisfação com a função, ambiente de trabalho, e não discriminação.


Promovendo a saúde e mantendo a habilidade funcional

O principal propósito da promoção de saúde é prevenir doenças e acidentes ocupacionais e promover a capacidade funcional. Em primeiro lugar o trabalho deve ser realizado sem colocar os empregados em riscos e em segundo é garantir um ambiente seguro e bem gerenciado. Isto contribui para manter a capacidade funcional e prevenir aposentadorias precoces por doenças. Melhores medidas requerem avaliação, monitoramentos e desenvolvimento constantes da salubridade e segurança do ambiente e condições de trabalho. O empregador, as comunidades, os empreendedores e todos os profissionais devem ter a oportunidade de participar das decisões que afetem sua saúde.


Fornecimento de serviços de saúde ocupacional abrangentes

Esses serviços devem ser disponibilizados a todos os ambientes de trabalho e para cada empregado e o desafio é atingir condições de trabalho atípicas e pequenas empresas. O que ainda é necessário é uma maior conexão entre centros de saúde, a criação de estruturas regionais e cooperação entre as companhias para produzir serviços ocupacionais. As mudanças estruturais na vida profissional e mudanças no conteúdo e procedimentos no trabalho juntos com a mudança demográfica da força de trabalho requer o desenvolvimento de novos métodos e estruturas para a saúde ocupacional, incluindo a revisão e emendas na lei afim de manter o passo das novas necessidades. Ao lado dos serviços preventivos, a assistência médica voluntária pelos empregadores é importante para assegurar a habilidade de trabalho e o bem-estar dos empregados durante sua vida ativa.


CONCLUSÃO


A vida profissional atualmente apresenta muitos desafios. Inclui o rápido envelhecimento da população, elevação dos custos da aposentadoria e as mudanças requeridas pelo trabalho. A promoção da saúde tem um papel chave nesse cenário. Boa gestão, comprometimento do empregado e incentivo a um estilo de vida saudável são meios de reduzir absenteísmo, aumentar a produtividade e prevenir aposentadorias precoces. Numerosos projetos têm sido criados e criaram novos modelos de promoção da saúde encorajando o setor e sendo adotado por diferentes empresas.

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