Promoção da Saúde Corporativa - Cap 11 - AFRICA DO SUL

Essa série semanal é baseada no livro GLOBAL PERSPECTIVES IN WORKPLACE HEALTH PROMOTION (Karch & Kirsten – Jones & Bartlett NY), no qual participei como co-autor, oferece um relato global do status da promoção de saúde em organizações de 21 países contribuindo para uma força de trabalho mais saudável, aumento da produtividade e redução dos custos de assistência médica.

RICARDO DE MARCHI, MD


GRUPO SAÚDE CORPORATIVA

CAPÍTULO 11 - AFRICA DO SUL


Autores:

· Tanya Kalas – International Health Consultant - Berlin

· Wolf Kirsten MSc – President International Health Consultant Berlin

· Gert Strydom PhD – Professor West University South África

· Cilas Wilders PhD – Faculty of Health Sciences – South África

· Grupos étnicos: africanos negros 79%, brancos 9.6%, asiáticos e indianos – 2.5%

· Religião: cristã 11,1%, pentecostal 8.2%, catolica 7.1%, metodista 6.8%, anglicana 3.8%

· Lingua: zulu 23,8%, xhosa 17.6%, africâner 13.3%, ingles 8.2%

· Governo: república parlamentar

· População: 60 milhões

· Idade media: 26 anos

· Expectativa de vida: 64 anos

· Renda anual percapita – US$ 6.100,00


INTRODUÇÃO


África do Sul, oficialmente República da África do Sul, é um país localizado no extremo sul da África, entre os oceanos Atlântico e Índico, com 2 798 quilômetros de litoral e uma área de terra duas vezes maior que a França e três vezes maior que a Alemanha. Existem 9 províncias e 3 capitais - Cape Town, capital legislativa, Bloemfontein, capital jurídica e Pretoria, capital administrativa.


A Constituição reconhece 11 línguas oficiais. Duas dessas línguas são de origem europeia: o africâner, uma língua que se originou principalmente a partir do neerlandês e que é falado pela maioria dos brancos e mestiços sul-africanos, e o inglês sul-africano, que é a língua mais falada na vida pública oficial e comercial, mas é apenas o quinto idioma mais falado em casa.


Considerado uma economia de renda média alta pelo Banco Mundial, o país é considerado um mercado emergente. A economia sul-africana é a segunda maior do continente (atrás apenas da Nigéria) e a 25ª maior do mundo.


Multiétnico, o país possui as maiores comunidades de europeus, indianos e mestiços da África. Apesar de 70% da população sul-africana ser composta por negros, este grupo é bastante diversificado e abrange várias etnias que falam línguas bantas, um dos idiomas que têm estatuto oficial. No entanto, cerca de um quarto da população está desempregada e vive com menos de 1,25 dólar por dia. mesmo sendo um país com razoável renda per capita a maioria das famílias vivem em condições precárias e vulneráveis à pobreza. Essa discrepância é devida a grande desigualdade na distribuição de renda insuficiente para obter assistência médica e educação.


QUESTÕES PREDOMINANTES


37% da população sente que tem um bom nível de saúde e a maior ameaça é a pobreza e a Aids – 7.7 milhões de pessoas têm HIV positivo. A prevalência é alta (20.4% da população). Pessoas com alto nível educacional tem uma percepção melhor do nível de saúde. A pobreza influi de vários modos e as famílias numerosas que vivem em pequenos espaços sentem baixa qualidade de saúde.


Uma questão prevalente é o aumento da taxa de obesidade e excesso de peso em adultos atribuída em parte aos padrões de atividade física ,resultado da urbanização que também contribuiu para diabetes e doenças cardíacas. Tuberculose, doenças cardíacas, diabetes, hipertensão arterial, viroses, são pontos de atenção. Esse cenário mostra que a população enfrenta muitos problemas de saúde e o governo tenta encontrar estratégias para lutar não somente contra a pobreza e suas consequências


SISTEMA DE ASSISTÊNCIA MÉDICA


Consiste principalmente de um amplo setor público que provê assistência médica para a população. A constituição garante acesso a todos os serviços e afirma que ninguém pode ser recusado em tratamento médico emergencial, porém é um sistema pouco capitalizado com falta de médicos e enfermeiros. Além disso, os profissionais da saúde preferem atuar nas cidades, e com isso, os recursos em áreas rurais e menos habitadas são escassos.


O seguro saúde privado é regulado pela Medical Schemes Act (que consolida leis sobre o sistema médico) e pacotes são disponibilizados para indivíduos, famílias e empresas - as quais oferecem um seguro como benefício, com os custos partilhados com os empregados. Esse sistema privado com alto nível de qualidade infelizmente atende principalmente a minoria branca e de alta renda, sendo inacessível ao resto da população.

Nas últimas décadas, os gastos com assistência médica privada tem crescido e em termos de PIB são muito mais altos que em outros países com o mesmo nível de desenvolvimento econômico. A % do PIB gasto com assistência médica na África do Sul não é suficiente para enfrentar os desafios existentes, e o problema não é a falta de recursos, mas sim a necessidade de usá-los de forma mais eficiente. O governo tem a responsabilidade de estabelecer as condições para que isso ocorra, mas infelizmente a maioria dos recursos e qualidade são acessíveis a que pode pagar pelo seguro privado, situação que leva a desigualdades raciais.


O atual governo trabalha para estabelecer um sistema de seguro saúde nacional (NHI) sem diferença de acesso entre diferentes grupos sociais. A discrepância existente ainda é grande, pois somente 16% da população tem seguro privado. O orçamento para assistência médica em 2019 foi de US$ 15.8 bilhões (222 bilhões de Rands). O NHI deve aumentar esse valor para US$ 24 bilhões e com isso melhorar a assistência, eficiência. qualidade e acesso.


Muitos dos problemas existentes são consequentes ao período do apartheid (1948 - 1993) no qual o sistema assistencial era fragmentado e discriminatório, o que levou à deterioração do sistema pela falta de recursos às comunidades mais pobres que foram especialmente afetadas.


Grande esforço tem sido feito para melhorar a qualidade desde 1994 e muitas questões tem sido discutidas:

  • tempo de espera

  • má higiene

  • inadequadas medidas para controle de infecção

  • litígios por erros médicos

  • falta de recursos e equipamento

  • insuficiente manutenção de dados

A maior fraqueza é a falta de recursos humanos (menos de 1 profissional por mil habitantes) comparada a 10/1000 na Europa. Isso tem levado à exaustão física e mental dos profissionais da saúde.


PROMOÇÃO DA SAÚDE


Começou a fazer parte do sistema da saúde em 1990 e atualmente é responsabilidade dos governos nacional, provincial e local. Existem diversos projetos visando melhorar a qualidade de vida dos sul-africanos. Um guia de normas da boa alimentação foi desenvolvido para promover ingestão de alimentos de forma prática, possível, sustentável e dentro dos padrões culturais na tentativa de ajudar a população a fazer escolhas saudáveis.


Na atividade física, um guia de normas para a vida ativa foca na perspectiva ecológica para a adoção de intervenções apropriadas, considerando a interação entre características individuais e fatores ambientais. O departamento nacional de saúde considera a abordagem ambiental crucial para o progresso da promoção da saúde.


Existem poucos especialistas habilitados e na posição de informar a classe política e líderes de opinião sobre as relações entre saúde e determinantes sociais e mostrar a evidência da efetividade das ações. Faltam mecanismos que demonstrem as evidências da efetividade da promoção da saúde na qualidade da saúde e em termos sociais, econômicos, além do impacto político. No ambiente corporativo, padrões ocupacionais para a educação e treinamento na saúde também são necessários


INFLUÊNCIA DA CULTURA E MENTALIDADE


Não existe uma cultura única na África do Sul. Alimentação, música e danças são características que influenciam a vida diária. Essa variedade de diferentes culturas étnicas muitas vezes pode ser encontrada na mesma região.


A cozinha sul africana incorpora numerosos pratos à base de carne como o tradicional churrasco conhecido como braais. O gosto por bebidas é arraigado na sociedade em todos os níveis num sistema antigo, antes de 1980, quando os trabalhadores muitas vezes recebiam parte do salário em álcool.


A obesidade tem um peso alto na saúde sul-africana, mas a cultura da atração física não considera esse ponto relevante. Uma outra tradição é a mulher ganhar peso antes de casar pois representa riqueza e família influente na comunidade. Uma adicional influência da obesidade é relacionada à mentalidade, pois desde que o HIV se tornou prevalente, as pessoas querem mostrar que não estão afetadas, sendo o sobrepeso um sinal de saúde pois a AIDS é conhecida como a doença da magreza.


No passado, a cultura da África do Sul era associada a um estilo de vida ativo, pois o trabalho braçal era um aspecto predominante da cultura e pela falta de transportem caminhar era parte da rotina diária. Com a urbanização uma grande mudança de estilo de vida ocorreu. Trabalho sedentário e tarefas demandando menos energia substituíram o trabalho físico e isso contribuiu também para o aumento do excesso de peso.


IMPULSIONADORES DA PROMOÇÃO DA SAÚDE NO TRABALHO


Existem itens que estimulam a promoção da saúde no trabalho, principalmente em empresas privadas que enxergam benefícios em investir na saúde dos empregados com boas consequências para a produtividade. Entretanto o governo tem papel importante, estabelecendo normas e leis para o bem-estar da força de trabalho., Leis para ambiente livre de fumo é uma delas. O governo tem grande interesse na promoção da saúde pois é um dos melhores meios de atingir a maior parte da população.


CONCLUSÃO


O grande desafio com o desenvolvimento econômico é a mudança de hábitos da população considerando a obesidade e o HIV como os principais alvos. As empresas estão mais conscientes dos benefícios da promoção da saúde e têm implementado programas como parte da responsabilidade social e estratégia de negócio. Infelizmente ainda faltam melhores métodos de mensuração e avaliação desses programas. Pesquisas adicionais nessa área são necessárias tornando um campo onde os profissionais de promoção de saúde podem avançar.

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