Promoção da Saúde Corporativa - Cap 16 - SUÉCIA

Essa série semanal é baseada no livro GLOBAL PERSPECTIVES IN WORKPLACE HEALTH PROMOTION (Karch & Kirsten – Jones & Bartlett NY), no qual participei como co-autor, oferece um relato global do status da promoção de saúde em organizações de 21 países contribuindo para uma força de trabalho mais saudável, aumento da produtividade e redução dos custos de assistência médica.

RICARDO DE MARCHI, MD


GRUPO SAÚDE CORPORATIVA

CAPÍTULO 16 - SUÉCIA


Autores:

· Jan Winroth – Senior Lecturer University West

· Lars Osterblom MSc – Senior Organizational Development Consultant - Stockholm

· Grupos étnicos: suecos, samis, finlandeses e imigrantes iugoslavos, dinamarquese, gregos, turcos,etc

· Religião: luterana 87%, católica, ortodoxa, batista, muçulmana, judaica e budista, etc

· Lingua: sueca e minorias que falam sami e finlandês

· Governo: monarquia constitucional

· População: 10,3 milhões

· Idade média: 42 anos

· Expectativa de vida: 82,6 anos

· Renda anual percapita – US$ 51.600,00


INTRODUÇÃO


Suécia tem aproximadamente 10,5milhõesde habitantes e faz parte da União Europeia desde 1995 e sua moeda ainda é a coroa e não o euro.


A influência da religião e da vida profissional na população praticamente são inexistentes, mas os suecos têm uma abordagem luterana do tempo e da moralidade respeitando os deadlines e a verdade


O envelhecimento da população coloca um desafio para a sociedade e a idade de aposentadoria é de 67anos. Os habitantes são encorajados a trabalhar por mais tempo e se aposentar por doenças. Mais de 5 milhões de habitantes compõe a força de trabalho e os pais têm o direito de se afastar do trabalho por 450 dias a partir do nascimento dos filhos, recebendo compensação pelo governo.


O nível de educação é alto e a população tem acesso gratuito até o nível secundário. A universidade é financiada por um generoso sistema de poupança e bolsas de estudo e assim a educação é acessível a todas as classes sociais. A legislação de saúde e segurança é bem estabelecida e a responsabilidade do empregador na prevenção de doenças e reabilitação é muito clara. Não existem leis que cobrem a promoção da saúde a qual tem sido introduzida nas empresas e setor público para melhorar a produção e tornar a companhia um empregador de escolha.


QUESTÕES PREDOMINANTES


Existem sinais que os aspectos da saúde física e mental no ambiente de trabalho têm melhorado desde os anos 90. A avaliação feita em 2006 mostrou que a proporção de empregados que utilizam o sistema diminuiu. Desde 2001 um crescente número de trabalhadores acredita que permanecerão com boa capacidade funcional até a aposentadoria. Entretanto existem contradições como por exemplo os sintomas de fadiga que tem aumentado ao final do expediente tanto no pessoal administrativo como na atividade fabril. A pesquisa também mostrou que um em cada quatro empregados refere que nos 12 meses prévios às avaliações tiveram alguma espécie de problema fisco ou mental que atribuem ao trabalho.


A proporção de problemas físicos e mentais aumentou entre 1997 e 2003 mas depois disso declinou. Na pesquisa de 2006 as mudanças foram relativamente pequenas quando comparadas com a de 2005. As seguintes observações foram dignas de nota:

  • Aumento do sobrepeso e obesidade cessaram, mas ainda são altos

  • Melhora do tabagismo

A nível organizacional as observações foram:

  • Novas formas de emprego ocasionando enfraquecimento das conexões do indivíduo com o trabalho

  • Mulheres tem ambientes de trabalho piores do que os homens

Alguns outros tópicos importantes são:

  • Tabagismo- proporção de mulheres fumantes caiu 5% entre 2004 e 2008. Hoje é de 14%. Entre homens caiu 3% e hoje é de 11%

  • Ingestão de álcool - Suécia tem uma política restritiva e vinho e destilados são vendidos somente por lojas estatais. 16% dos homens tem consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

  • Peso corporal – a proporção de homens com peso normal é de 45% e mulheres 58%. Em 2008 a taxa de obesidade era de 12%

  • Atividade física – cerca de 2/3 da população se considera engajada em algum tipo de atividade física por pelo menos 30´/dia.

Além disso a Suécia enfrenta alguns desafios referentes ao stress que afeta a qualidade do sono e o envelhecimento da força de trabalho.


SISTEMA DE ASSISTÊNCIA MÉDICA


O sistema sueco é financiado pelos impostos assegurando que os serviços são acessíveis. O sistema é descentralizado e a responsabilidade primária é dos conselhos regionais e municipais. O modelo é o sistema universal para todos os cidadãos apesar da existência de assistência médica privada. É um dos melhores sistemas do mundo onde as pessoas vivem mais, sendo que 20% não tem descontos em seus salários. Essa dinâmica faz com que os benefícios sociais não evoluam e desacelerem a economia.


Suécia é dividida em 290 municipalidades e 21 conselhos regionais e a assistência é regulada pelo Health and Medical Service Act. O papel do governo central é estabelecer princípios e normas e construir a agenda política para a saúde e assistência médica. A lei estabelece que os conselhos regionais municipais têm a responsabilidade de oferecer assistência médica de qualidade e promover a saúde de toda a população.


Desde 2019 os conselhos cobrem também os custos odontológicos dos residentes até a idade de 23 anos. A partir dessa idade é subsidiado pelo governo. Os municípios são responsáveis pelos cuidados dos idosos através do homecare ou quando internados em clinicas para idosos. Seus deveres incluem também cuidados para pessoas com incapacidade física ou problemas psicológicos além de pacientes que recebem alta hospitalar e ainda precisam de cuidados e a assistência médica para as escolas.


População idosa - Como em outros países desenvolvidos as pessoas estão vivendo cada vez mais. A expectativa de vida atual é de 84 anos para as mulheres e 81 anos para os homens em parte atribuída a redução da mortalidade por doenças cardíacas e derrames. Uma pessoa em cada cinco tem mais de 65 anos significando que a Suécia proporcionalmente tem uma das populações mais velhas da Europa o que põe pressão no sistema de saúde. Por outro lado, o número nascimentos tem aumentado anualmente a partir de 1990.


Custo – um paciente nunca paga mais que 1.150 coroas (US$ 140) em consultas e 2.350 coroas (US$ 280) por medicamento por ano. Qualquer valor acima disso é isenta de custos.


Qualidade da assistência- muitos dos desafios são similares à maioria dos países e incluem acesso, qualidade, eficiência e financiamento. Umas das principais áreas é a segurança e uma lei de 2011 dá aos pacientes, consumidores e familiares a oportunidade de influenciar a qualidade da segurança e assistência medica. O ponto principal é tornar mais fácil reportar casos de tratamentos errados. Existe uma pesquisa anual que mede como os pacientes percebem a qualidade da assistência. Questões sobre tratamento, envolvimento do paciente, confiança e informações são levantadas. Os resultados são compilados por cada conselho regional e usados para desenvolver e aprimorar essa assistência.


Visão para a tecnologia na saúde – eHealth: em 2025 a Suécia será o melhor país do mundo no uso de oportunidades oferecidas pela digitalização e a eHealth facilitará a se atingir uma alta qualidade e igualdade na saúde e bem-estar, além de otimizar os recursos para aumentar a independência e participação na vida da sociedade.


Assistência por especialidades dentro de 90 dias – tempo de espera para atendimentos eletivos tais como catarata, prótese de quadril é causa de insatisfação e por isso foi introduzido uma garantia de atendimento em 2005. Todo paciente deve contatar o centro de saúde local no mesmo dia que percebem o problema e a consulta deve acontecer em 3 dias. Após o exame inicial nenhum paciente tem que esperar mais de 90 dias para ver um especialista e não mais de 90 dias para uma cirurgia ou tratamento uma vez determinado qual o tratamento necessário. Se o tempo exceder esse limite os pacientes podem ser tratados em qualquer outro lugar sem custos extras, inclusive despesas de viagem. Estatísticas de 2020 mostram que 88% vêem um especialista nesse prazo e 82% recebem o tratamento prescrito, mas essa estatística tem mudado devido a inesperada pandemia da COVID-19 que se tornou prioridade em todo o mundo .


Gastos públicos com saúde – os gastos com saúde representam 11% do PIB e esse volume é através de impostos regionais e municipais. As contribuições nacionais também podem ser fonte de financiamento enquanto as taxas de pacientes cobrem uma pequena % desses custos.


Assistência médica privada - atualmente é comum os conselhos regionais comprarem serviços de provedores privados. Em 2018, 13,5% da assistência era financiada pelos conselhos regionais e fornecida por provedores privados. Um acordo garante que os pacientes são cobertos pela mesma lei e taxas aplicadas pelas municipalidades.


Farmácias – toda a comunidade de farmácias é dirigida pela Apoteket AB a única que tem o direito de vendas no varejo. Essa instituição produz material educacional e desenvolve diferentes e cursos em parceria com o National Institute of Public Health, mas dependendo do tema pode ter parcerias com conselhos municipais e associações com a Sociedade Sueca do Câncer, Fundação Cardíaca, etc. Constantemente promove a saúde através de várias atividades e do tema anual do ponto de vista preventivo.


Promoção da saúde - a agência de saúde pública tem a responsabilidade de proteger a população contra doenças comunicáveis e outras ameaças além de disseminar conhecimentos científicos para promover a saúde e prevenir doenças. Nesse caso a missão é monitorar o nível de saúde e os fatores que a afetam. Diferentes comissões trabalham na legislação, na prevenção e no financiamento com o objetivo de implementar uma estratégia nacional de saúde para todos. Programas para doenças cardiovasculares, câncer, acidentes, entre outros foram estabelecidos por resoluções parlamentares em 1985 e o papel da educação em saúde tem sido estendido além do conceito de estilo de vida individual para motivação da comunidade em ter um ativo interesse na própria saúde. Esforços ainda têm que ser feitos para tornar a promoção da saúde uma prática generalizada. As estratégias são usadas em campos tradicionais como álcool e fumo assim como educação, cultura, bem-estar social, planejamento de cidades, transporte e proteção ambiental. Nunca houve um momento tão positivo para o desenvolvimento de políticas de promoção de saúde ainda que existam potenciais conflitos relacionados à organização, conhecimento, atitudes, financiamento, distribuição, etc.


INFLUÊNCIA DA CULTURA E MENTALIDADE


A Suécia tem uma população pequena considerando seu tamanho geográfico. Existe muito espaço para atividades físicas e, para o sueco a vida ativa é um processo natural. Muitas famílias têm casas de verão e existem áreas atraentes na costa com um grande número de ilhas e montanhas propícias a atividades ao ar livre. Todos os suecos têm 05 semanas de férias por ano.


Os suecos desenvolveram uma espécie de ambiente de trabalho democrático que afeta a liderança e a gestão do negócio. O estilo é baseado na orientação em grupo que encoraja a delegação e estimula a auto responsabilidade do empregado. Soluções organizacionais tais como a descentralização, delegação de responsabilidade e deveres e independência são elementos comuns. A característica principal da liderança é a confiança e o autocontrole além do processo de utilização do tempo para tomada de decisões.


IMPULSIONADORES DA PROMOÇÃO DA SAÚDE NO TRABALHO


Quando se discute o conceito de promoção de saúde no trabalho é enfatizado a abordagem organizacional e o contexto dessa abordagem. Não existe um significado fixo em promoção de saúde. É uma mistura de abordagens e ângulos onde o estilo de vida tem papel proeminente. Recentemente questões de recursos humanos tem sido ligadas mais frequentemente à saúde e em certas organizações questões entre trabalho e saúde tem sido relacionadas. Consultores tem um papel importante quando se fala em promoção de saúde. Frequentemente desenvolvem os próprios conceitos enfatizando desenvolvimento da liderança, ou instrumentos que apoiem os objetivos relacionados à saúde. Atores adicionais são as companhias de seguro e fornecedores de educação.


CONCLUSÃO


A promoção de saúde envolve um processo que permite organizações, grupos e indivíduos aumentarem seus controles sobre fatores que influenciam a saúde e deste modo melhorá-los. O conceito ainda está longe de ter unanimidade. O direcionamento tem vários focos e tradicionalmente o foco do ambiente de trabalho domina a arena, podendo ser a base para outros conceitos, mas nunca mais importantes quanto.

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