Promoção da Saúde Corporativa - Cap 20 - EUA

Essa série semanal é baseada no livro GLOBAL PERSPECTIVES IN WORKPLACE HEALTH PROMOTION (Karch & Kirsten – Jones & Bartlett NY), no qual participei como co-autor, oferece um relato global do status da promoção de saúde em organizações de 21 países contribuindo para uma força de trabalho mais saudável, aumento da produtividade e redução dos custos de assistência médica.

RICARDO DE MARCHI, MD


GRUPO SAÚDE CORPORATIVA

CAPÍTULO 20 - NORUEGA


Autor:

· Robert C. Karch EdD – American University – Professor of Global Health Executive Director National Center for Health and Fitness – Washington DC

· Grupos étnicos – brancos 80%, negros 13%, asiáticos 4.5 %, amerÍndios 1%,

· Língua oficial – inglês 82,1%, espanhol 10,7%

· Governo – república democrática

· População – 328 milhões

· Idade media – 38 anos

· Expectativa de vida – 78,6 anos

· Renda anual percapita - US$ 65.300,00


INTRODUÇÃO


Um fundamento essencial para apresentar um panorama abrangente dos programas de promoção de saúde nos EUA deve começar, e estar centrado, no entendimento dos fatos demográficos chaves em relação à população norte-americana. Os EUA como país, é um dos maiores e mais avançados e produtivos no mundo. É o terceiro em população depois da China e Índia, e possui a quarta maior força de trabalho (depois da China, Índia e União Europeia,) com aproximadamente 165 milhões predominantemente dispersa em áreas urbanas e com aproximadamente 25 milhões de empresas. Um amplo e avançado setor de serviços representa 77% da economia e com um PIB de US$ 21.5 trilhões. Essa economia é mantida pelo alto teor de cidadania e alfabetização (99%).


Em comparação com padrões globais, o nível de saúde da população é bom e a disponibilidade de serviços médicos é abundante e avançada. Entretanto, a assistência médica está entre as mais caras do mundo, consumindo anualmente mais de US$3.5 trilhões (17.7% do PIB). A ligação entre esses custos e a promoção de saúde no trabalho é um tema altamente discutido pelo HHS (Human and Health Services) que tem a missão de aprimorar a saúde e o bem-estar da população, fornecendo serviços efetivos e fomentando avanços na ciência médica, saúde pública e serviços sociais.


Diferente de muitos países, a grande maioria dos indivíduos que trabalham obtém seus benefícios médicos (e em muitos casos seus dependentes) através de seus empregadores. Cerca da metade da população faz parte da força de trabalho. Pelo fato de que o custo é partilhado entre empregador e empregado, é de interesse de ambas as partes criarem e promoverem programas e serviços que melhorem a saúde de empregados e dependentes.


QUESTÕES PREDOMINANTES


Como em outros países, as doenças crônicas são as principais causas de morte e incapacidade nos EUA. Como item importante para a promoção da saúde as doenças crônicas mais frequentes como diabetes, doenças cardíacas, câncer, avc, artrite e obesidade também são as que custam mais e todas são passiveis de prevenção.


O CDC (Centers for Disease Control and Prevention), agencia nacional de proteção à saúde- www.cdc.gov ressalta os seguintes pontos:

  • Anualmente 07 em cada 10 mortes são por doenças crônicas

  • Quase 50% dos americanos tem no mínimo uma doença crônica

  • Obesidade é um dos problemas que mais preocupam (1 em cada 3 adultos)

  • Cerca de ¼ dos portadores de condições crônicas tem uma ou mais limitação física

  • Artrite é a > causa de incapacidade c/20 milhões de pessoas reportando essa limitação

  • Diabetes é a principal causa de insuficiência renal, amputações e cegueira entre adultos de 20 a 74 anos

Claramente um grande percentual de questões de saúde presentes nos EUA pode ser diretamente ligada a comportamentos individuais e escolhas que os cidadãos fazem no dia a dia. Os desafios para os profissionais de saúde e em particular para os que atuam na promoção da saúde no trabalho é oferecer programas efetivos que modifiquem comportamentos e estilo de vida que estão ligados às doenças crônicas.


O CDC relata as mais comuns:

  • Alimentação inadequada

  • Tabagismo

  • Consumo excessivo de álcool

  • Quantidade inadequada de atividade física

O impacto das doenças crônicas não somente afeta negativamente os custos médicos e a produtividade de adultos ativos, mas também os jovens, o que afetará a performance futura do país.


SISTEMA DE ASSISTÊNCIA MÉDICA


A cobertura da assistência médica é fornecida através de uma combinação de seguro privado e público (Medicare e Medicaid). Os EUA não têm um modelo universal como em outros países desenvolvidos e seu sistema foi criado para fornecer assistência de alta qualidade para mais de 300 milhões de pessoas, num sistema privado baseado em vínculos empregatícios. Uma lei de 1942 (Stabilisation Act) tornou as empresas capazes de oferecer planos de seguro saúde como benefícios marginais e isso foi o começo da prática do seguro saúde financiado pelo empregador. O preço dos cuidados médicos é o principal fator atrás dos custos da assistência médica, representando 90% dos gastos. Isso reflete no custo de assistência para os doentes crônicos, envelhecimento da população e o crescente custo de novos medicamentos, procedimentos e tecnologias.


Esse sistema é único e complexo no como e onde é oferecido, quem paga e como o pagamento é feito.

Existem 3 fatores chaves em qualquer discussão desses serviços – acesso, qualidade e custo.

  • Acesso – um aspecto único no sistema é que apesar da impressão contraria, todos os cidadãos nos EUA tem acesso à assistência médica de qualidade. Pela lei Emergency Medical Treatment and Active Labor -1986 – hospitais e serviços de emergência não podem rejeitar ninguém com necessidade de cuidados emergenciais. Indivíduos procurando por assistência nos EUA também têm acesso aos centros de saúde comunitários os quais fornecem atendimento de qualidade para populações pobres.

  • Custos da assistência médica – entre 2009 e 2019 o prêmio anual para cobertura familiar subiu de 13.000 para 20.500 dolares. Pelo fato da maioria dos empregados ter assistência médica através de seus empregadores que acreditam que empregados saudáveis são mais produtivos, se desenvolveu em empresas mais avançadas uma forte ligação de saúde entre empresa e empregado. Entretanto as questões criticas do alto e sempre crescente custo e a necessidade de gerenciá-los aumenta o ímpeto para a implantação de programas de promoção de saúde. Claramente se percebe o interesse de ambas as partes para maximizar as oportunidades de conseguir e manter um alto nível de saúde individual. Por mais de 4 décadas os programas de promoção de saúde corporativos têm desempenhado um importante papel estabelecendo uma interessante relação de empregados com o sistema de assistência médica oferecendo programas abrangentes e integrados.

  • Hospitalização – de acordo com a Healthcare Cost and Utilization Project (HCUP), existiram 35.7 milhões de hospitalizações em 2016 , uma diminuição significativa dos 38.6 milhões em 2011. O custo médio de uma internação é da ordem de US$ 11.700 com tempo de internação médio de 4.6 dias.

  • Seguro saúde e acessibilidade – O sistema americano não oferece assistência médica para toda a população. Em vez disso a maioria dos cidadãos tem cobertura pela combinação de seguro privado e varios programas estatais. Em 2017 o seguro saúde era normalmente adquirido através de planos em grupo ligados à empresa, cobrindo 150 milhões de pessoas. Outras fontes incluem o Medicaid, cobrindo 70 milhões, Medicare 50 milhões e Seguro saúde de mercado criado pelo Affordable Care Act (ACA) cobrindo cerca de 17 milhões de pessoas. Um estudo mostrou que 73% desses planos (ACA) têm rede muito pequena, limitando acesso e escolha de provedores.

Mensuração do acesso e de preços acessíveis feitos por uma pesquisa nacional incluem:

  • % da população que tem uma fonte de assistência médica

  • % da população que vai ao dentista uma vez ao ano

  • Taxa de hospitalizações evitáveis

  • Dificuldades para consulta com especialista

  • Demora de assistência devido aos custos

  • Taxa da população com cobertura por seguro

O instituto Gallup avalia a % da população de americanos adultos que não possuem seguro desde 2008. Chegou a 18% em 2013, e depois diminuiu (devido ao ACA act) para 10,9% e em 2018 chegou a 13,7%.


Provedores – os provedores de assistência médica englobam assistência médica pessoal, estabelecimentos médicos (maioria privados) e medicamentos. Em 2018 haviam 5.534 hospitais registrados oferecendo algum serviço ambulatorial, mas primariamente eles fornecendo hospitalização.


Produtos médicos, pesquisas e desenvolvimento – Em 2003 os gastos com pesquisas foram de aproximadamente US$ 95 bilhões com US$ 40 bilhões de fontes públicas. O país é líder mundial em inovações médicas, tanto em termos de receita como na quantidade de novos medicamentos e equipamentos introduzidos no mercado. Em 2016 o gasto em pesquisas e desenvolvimento pelas companhias farmacêuticas chegou a US$ 59 bilhões, representando ¾ do gasto mundial nessa área.


Medicina Alternativa – praticada com mais frequência que antes. Rotulada de medicina complementar e alternativa é definida como terapia não ensinada nas escolas médicas e não disponível em hospitais. Incluem ervas, energização, homeopatia, crioterapia, estimulação magnética transcraniana, etc. As razões para a procura por essas alternativas incluem melhoria do bem-estar, maior controle da saúde e tentativa de encontrar um meio melhor para aliviar sintomas causados por doenças crônicas


Saúde Mental – afeta 1 em 6 adultos (45 milhões de pessoas) e é ranqueada entre as top 5 condições de maior custo (gastos de US% 57,5 bilhões em 2016). É também a segunda maior causa de incapacidade da nação. Estima-se que menos da metade das pessoas com doenças mentais recebam tratamento devido a fatores como estigma ou falta de acesso.


Saúde Dental – pouco reconhecida como parte da assistência médica. Atualmente é considerada distinta da atenção primária e o seguro dental é separado do seguro saúde


Promoção da saúde – O Office of Disease Prevention and Health Promotion (ODPHP), criado pelo congresso (1976) para conduzir a prevenção de doenças e a promoção de saúde, tem um papel vital na manutenção da saúde da população. É parte do Departamento de Health and Human Services e atinge seus objetivos através do estabelecimento de metas nacionais de saúde e apoio a programas, serviços e atividades educacionais.


O site https://health.gov/about-odphp inclui informações sobre o Healthy People 2030 e informações aos consumidores pelo MyHealthfinder. O Healthy People 2030 estabelece essas metas visando melhorar a saúde e o bem-estar nesta década.

São comprometidos a fornecer treinamentos e recursos para a melhoria da qualidade da saúde com os seguintes objetivos:


  • Saúde mental - melhorar a saúde mental

  • Atividade física - melhorar a saúde, a aptidão física e qualidade de vida através de atividade física regular

  • Cuidados preventivos: ajudar as pessoas a utilizar assistência médica

  • Nutrição saudável – promover alimentação saudável e tornar alimentos nutritivos disponíveis

  • Sono - melhorar a saúde, produtividade, bem-estar qualidade de vida e segurança ajudando as pessoas a terem sono suficiente

  • Manuseio seguro de alimentos

  • Comunicação em saúde – tornar comunicação eletrônica fácil de ser entendida e usar o marketing de mídias sociais

  • Força de trabalho – fortalecimento pela promoção da saúde e bem-estar

  • Saúde ambiental – promoção de ambientes saudáveis para melhorar a saúde

  • Melhor assistência médica

INFLUÊNCIA DA CULTURA E MENTALIDADE


O conceito de encorajar indivíduos a abraçar e adotar ações que melhorem a própria saúde e a saúde de seus próximos tem sido parte do comportamento da sociedade americana desde sua fundação. Essa tradição acompanhou os colonizadores europeus que vieram ao Novo Mundo.


Existe um número variado de características culturais que influenciam o nível de saúde e o comportamento dos americanos como o individualismo e a ambição responsáveis pela motivação na mudança de hábitos, mas que ao mesmo tempo são responsáveis pela excessiva ambição de vencer e muitas vezes negligenciando a própria saúde.


A cultura do trabalho é proeminente e a quantidade de horas trabalhadas estão entre as maiores no mundo, deixando pouco tempo para atividades de lazer. Um ponto interessante é que o termo stress não é usado amplamente ou mesmo aceito no mundo corporativo, sendo frequentemente entendido como parte natural do trabalho. Limitação de instalações ou condições inseguras podem dificultar a prática de atividade física assim como a grande quantidade de fast-foods favorecem a alimentação pouco saudável.


IMPULSIONADORES DA PROMOÇÃO DE SAÚDE NO TRABALHO


Enquanto as mudanças e alcance dos programas de promoção de saúde têm acontecido rapidamente, permanece uma filosofia que é o princípio central de todos os programas de alta qualidade – a crença que empregado saudável tem um alto potencial de permanecer produtivo e contribuir para o sucesso da companhia em comparação com um empregado com má saúde. Assim, um fator importante tem sido tornar e manter empregados com boa saúde e quando possível fazer o mesmo com seus dependentes. Além disso é e continuará sendo difícil para uma companhia ser competitiva no mercado global com empregados não saudáveis.


Cinco fatores chaves que contribuíram e continuam a contribuir para o desenvolvimento progressivo dos atuais programas de promoção de saúde:

  1. Controle de custos

  2. Produtividade e absenteísmo

  3. Imagem corporativa

  4. Atração e retenção de empregados

  5. Gestão de empresas multinacional

CONCLUSÃO


É fato que grandes progressos têm sido feitos no desenvolvimento de programas de promoção de saúde nas últimas décadas. Muitos deles influenciados por 4 fatores.

O primeiro é o despertar global para a importância e papel do individuo e da sociedade no conceito “saúde para todos”.

O segundo fator, ligado ao primeiro e que se origina do ambiente corporativo é a emergência do campo da promoção de saúde no trabalho.

O terceiro são as pesquisas que claramente indicam que programas com alta qualidade e objetivos econômicos podem trazer benefícios individuais, corporativos e sociedade em geral.

O quarto pode ser descrito como “fator de migração” pelo fato de que no passado muitos dos componentes eram vistos como totalmente não relacionados com a promoção da saúde e hoje em dia as empresas de ponta estão migrando para diferentes aspectos da gestão do capital humano e construindo programas mais abrangentes de promoção de saúde que contribuem para os resultados desejados


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