Série Promoção da Saúde Corporativa - Cap 6 - GOLFO PÉRSICO

Essa série semanal baseada no livro GLOBAL PERSPECTIVES IN WORKPLACE HEALTH PROMOTION(Karch & Kirsten – Jones & Bartlett NY) no qual participei como co-autor, oferece um relato global do status da promoção de saúde em organizações de 21 paises contribuindo para uma força de trabalho mais saudável, aumento da produtividade e redução dos custos de assistência médica.

RICARDO DE MARCHI, MD


GRUPO SAÚDE CORPORATIVA

CAPÍTULO 6 - GOLFO PÉRSICO

(Bahrain, Qatar, Kuweit, Oman, Emirados, Arábia Saudita)


Autores:

· Jalees K. Razavi MBBs – Director Occupational Health – Imperial Oil limited

· Wolf Kirsten – Presidente International Health Consultant - Berlin

· Religião – Islamismo

· Lingua – árabe

· Governo – monarquia constitucional, emirado, federação

· População - 42 milhões

· Idade média – 28 anos

· Expectativa de vida – 75.3 anos

· Renda anual percapita – US$33.200


INTRODUÇÃO


Esse capítulo foca nos países membros do Conselho de Cooperação do Golfo Pérsico (GCC) que é uma associação dos reinos do Bahrain. Qatar, Kuweit. Sultanato de Oman, Emirados Árabes Unidos (UAE) e o reino da Arábia Saudita. Foi criado em 1981 nos moldes da União Europeia para formar um mercado comum e apoiar investimentos e comércio de serviços.


Essa região teve um tremendo desenvolvimento e crescimento econômico desde os anos 90, em grande parte devido aos recursos naturais (óleo e gás). Assentamentos nômades se tornaram modernas cidades com arranha céus, aeroportos de padrão internacional e um grande fluxo de imigrantes.


As fascinantes mudanças sociológicas e econômicas tiveram um papel chave na saúde da população. Ao lado do rápido desenvolvimento, esses países cada vez mais tem enfrentado desafios com as doenças crônicas. Adotaram padrões comportamentais e estilo de vida do ocidente, o qual contribuiu para o aumento de doenças não comunicáveis tais como diabetes e hipertensão. Ao mesmo tempo, doenças comunicáveis tais como Malária, HIV, Ebola, Febre Amarela, Pólio não foram totalmente erradicadas. Esse duplo fardo causou grandes desafios para o sistema de assistência médica.


Uma impressionante característica de todos os países do GCC é a diversidade populacional. Diferentes grupos étnicos e nacionalidades podem ser encontrados em todas as nações.


O governo reconhecendo a forte dependência do petróleo começou a investir em setores como finanças, tecnologia e turismo para mais contribuições ao PIB. A tendência é o aumento da urbanização e maiores oportunidades de trabalho para o povo.


Historicamente, os nômades e indígenas árabes não se dão bem com o estilo de vida ocidental. A predisposição genética assim como a reduzida habilidade fisiológica para lidar com o estilo de vida sedentário e a digestão de alimentos processados provavelmente tenha contribuído com a alarmante taxa de doenças crônicas. A dieta do dia a dia mudou a predominância de peixes frescos, para fast foods processadas.

Além disso, a atividade física declinou significativamente devido ao uso de automóveis e a infraestrutura que não estimula a vida ativa. Essa letal combinação levou a taxas crescentes de sobrepeso e diabetes. Os custos associados também se elevaram e o GCC reagiu a isso investindo pesadamente em assistência médica curativa.


O mais notável exemplo é Dubai, onde o estado da arte da medicina está disponível. Infelizmente a promoção da saúde e estratégias preventivas ainda deixam a desejar. Alguns desses governos tem reconhecido que sem estratégias de promoção da saúde a crise das doenças crônicas não consegue ser superada. Como exemplo, o Qatar criou um conselho de promoção de saúde que faz parte do Ministério da Saúde e Bahrain tem hoje sua estratégia própria de promoção de saúde.


QUESTÕES PREDOMINANTES


Os desafios na saúde diferem entre os estados do Golfo, mas a doença cardíaca permanece a principal causa de morte entre todos eles. As doenças não comunicáveis dominam as estatísticas de mortalidade e as doenças comunicáveis praticamente desapareceram. É importante notar que a tendência das doenças e o nível de saúde diferem consideravelmente entre os habitantes nacionais e os residentes estrangeiros que em sua maioria são trabalhadores braçais vivendo em condições desafiadoras.


Menos direitos, falta de saneamento, severas condições de trabalho (calor excessivo) e práticas de segurança reduzidas tem sido o objeto de atenção. Doenças cardio e cerebrovasculares, assim com a diabetes tem crescido (entre os 10 países com maior prevalência de diabetes). Tabagismo é especialmente alto entre homens árabes (+ de 25%). Sobrepeso tem se tornado significativo, sendo maior entre as mulheres. O padrão de alimentação mudou dramaticamente em alguns dos países árabes devido ao aumento da renda (aumento da ingestão calórica, gordura animal). A inatividade em adultos jovens é alta. Outro desafio é o alto número de acidentes em rodovias sendo uma das top 5 causas de morte.


SISTEMA DE ASSISTÊNCIA MÉDICA


O gasto em assistência médica tem sofrido rápidas mudanças. Em média representa entre 3% a 5,5% do PIB do grupo. O progresso se deve ao aumento na demanda pela assistência médica pelas novas atitudes em relação ao estilo de vida e o aumento da expectativa de vida.


Apesar desses países terem uma % mais baixa de idosos que Europa e América do Norte, desafios existem. Por um lado, o sistema de saúde não é preparado para o aumento do envelhecimento da população e por um outro com o crescimento populacional a economia não é capaz de prover quantidade suficiente de empregos para os jovens, refletindo no sistema de saúde. O acesso ao sistema não alcança 100% da população, especialmente em áreas rurais, pois a infraestrutura é insuficiente.


Um estudo mostra a necessidade de mais hospitais, médicos e enfermeiros para manter um o nível atual de cuidados. Esse processo demanda tempo e poucos jovens desejam seguir a carreira nesse campo.


O governo é o principal provedor assumindo ¾ dos gastos e o esforço para prover serviços de qualidade é grande. Existe uma lacuna entre a assistência aos ricos e pobres. O GCC tem aumentado de forma incipiente o orçamento em saúde nos últimos anos apesar do grande crescimento do PIB. O aumento se mostra crucial assim como o modo desse dinheiro ser gasto. O foco deve ser não somente em medicina curativa, mas também promover a saúde pública oferecendo serviços preventivos. Além disso os fatores determinantes da saúde como gênero e nível social necessitam ser mais valorizados como o recomendado pela OMS.


INFLUÊNCIA DA CULTURA E MENTALIDADE


A maioria da população é muçulmana. No Islam a prevenção de doenças é olhada como um sistema de autocontrole, hábitos alimentares moderados e vida ativa. Os fundamentos da promoção da saúde podem ser encontrados no Quran e no Sunnah, escrituras da época de Maomé. Como exemplo, Shuuura, um processo na estrutura social de consultas entre as pessoas e seus líderes inclui os cuidados com a saúde. As duas escrituras enfatizam os rituais individuais e comunitários, tais como higiene e o papel das mesquitas como unidades que fortalecem as ações comunitárias e as habilidades pessoais atualmente presentes na Carta de Otawa (OMS).


Em particular a organização social, a vida comunitária e a sensação de fazer parte de algo maior, raras nas sociedades ocidentais, podem ser significantes fatores que contribuem para a melhoria da saúde. O Quran tem muitos versos que encorajam a prevenção primária e secundária. Uma fala atribuída ao profeta Maomé diz que 1/3 do estomago deve ser deixado para os alimentos, outro terço para líquidos e uma terceiro sempre permanecer vazia. O apelo para o trabalho físico e vida ativa também é mencionado.


O escritório regional da OMS no leste do mediterrâneo desenvolveu uma estratégia especifica para a promoção da saúde no Islam, publicando a Declaração de Amam que diz “ o estilo de vida islâmico envolve diferentes e positivos padrões promovendo a saúde e rejeitando qualquer comportamento contraditório à saúde”.


Fatores socioculturais como discriminação de gêneros, educação e trabalho feminino impactam na dieta, no peso corporal e no nível de atividade física. Família e privacidade são fortes valores na cultura. Questões pessoais são raramente mencionadas fora do núcleo familiar e atividade física em público se tornou uma visão normal nos últimos anos. O forte calor restringe dificultam atividades externas e as pessoas tendem a usar o tempo livre comendo e comprando em shoppings.


IMPULSIONADORES DA PROMOÇÃO DA SAÚDE NO TRABALHO


Desde o início desse século tem havido mudanças positivas em todos os países da GCC especialmente na Arábia Saudita, Bahrain e Emirados onde os direitos dos empregados têm sido garantidos através de comitês de trabalhadores que cuidam desses interesses e apresentam suas necessidades e interesses aos empregadores.


O GCC reconhece que empregados de pequenas e médias empresas não recebem suficiente atenção na saúde pois não existem procedimentos que monitorem acidentes e doenças. As grandes empresas normalmente têm políticas ocupacionais efetivas e se preocupam com a relação entre a saúde e a produtividade e gradualmente se tornam mais atentas com as doenças crônicas, saúde individual e estilo de vida.


CONCLUSÃO


Os países do GCC enfrentam os desafios das doenças crônicas, falta de profissionais de qualidade e uma força de trabalho multicultural. Entretanto, a região tem recursos suficientes para lidar com esses desafios, pois a maioria desses países acumula riquezas pelo boom do petróleo e do gás e gradualmente estão em transição para uma economia mais diversificada e com isso melhoria na saúde.


Infelizmente o aumento da consciência em saúde é mais lenta que a urbanização a qual tem um papel na promoção de estilos de vida menos saudáveis. É tempo de um crescimento melhor calculado, como o planejamento de cidades que considerem questões ambientais e de saúde de forma mais clara. Isso requer uma mudança dos paradigmas do modelo biomédico para um modelo de promoção de saúde. O local de trabalho é um cenário favorável a isso. Os governos têm um papel chave nesse processo através de políticas, estratégias, incentivos, infraestrutura e direcionamento. Os países do GCC continuam a fortalecer a cooperação entre eles e aprender não somente como crescer a economia, mas também melhorar a saúde de seus cidadãos.


GO AHEAD


Destaques
Arquivo
Acompanhe
  • Grey LinkedIn Icon
  • Cinzento Ícone Google+
  • Grey YouTube Icon

São Paulo - Brasil contato@cph.com.br

  • White LinkedIn Icon
  • White YouTube Icon
  • Branco Ícone Google+